100 gols de um goleiro equivalem a 1000 de um atacante.
Sem mais…
(dica do também são-paulino Marcos Palacios)
100 gols de um goleiro equivalem a 1000 de um atacante.
Sem mais…
É praticamente impossível escolher onde se nasce. Por uma razão muito simples: nunca te consultam sobre isso. Mas é plenamente possível optar onde viver e, quem sabe, passar os últimos dias da vida.
Para os seres humanos, a vida se desenrola em torno das cidades. E mesmo que tentemos fugir delas, elas se estendem ao longo do mundo e acabam nos alcançando. Não se vive fora delas, e cada cidade ajuda a gerar tipos diferentes de vida. Por isso que escolher é tão importante, tão precioso, tão especial.
Eu, por exemplo, vivo numa ilha há catorze anos. Num dia qualquer, me precipitei do interior de São Paulo para Florianópolis, com o claro propósito de escrever as linhas da vida com a minha caligrafia torta. Talvez tenha sido esse o único destino verdadeiro que decidi. De lá pra cá, mergulhei na cidade, e fiz dela a minha pátria. Como a gente pertence à cidade dos filhos, tratei de fincar uma raiz familiar na capital catarinense. E costumo dizer: quando (e se) eu morrer, quero ser enterrado aqui.
Eu sei que Florianópolis é desses lugares fáceis de deitar elogios. As belezas naturais, a exuberância de suas mulheres, as curvas dos seus caminhos, seus sabores à mesa, seu sol e as águas do Atlântico fazem desse canto um encanto. Mas quem aqui vive sabe também das feridas: o trânsito caótico, a insegurança pública, a fauna especulativa no setor imobiliário, o anacronismo político.
Mas eu vivo numa ilha e sou muito, muito feliz.
Meu horizonte se alarga aqui. A maresia me desvencilha dos problemas. O vento sul renova nossos ares.
Florianópolis faz aniversário amanhã, e eu quase nem ligo pra isso. É que comemoro todos os dias.
Ao leitor invejoso, desculpe a falta de pudor. É que ando meio manezinho, sabe…
Em mais uma paródia ao filme A Queda, quando legendas cômicas são adicionadas a uma cena num bunker, Hitler se irrita com os vazamentos do Wikileaks. Guardadas as devidas proporções, deve ter acontecido uma explosão semelhante no gabinete da secretária de Estado Hillary Clinton, em dezembro passado…
Naqueles dias, o amor era como o ar que se respirava: era ofegante, quente, abrasador, todos dependiam dele pra viver e estava em toda a parte. Amava-se mais que tudo. Entre um baile e outro. Entre uma ala e outra na avenida. Com máscaras ou sem elas, com todas as fantasias ou sem nenhuma roupa. Após os quatro dias, e bem depois – nove meses além -, nasciam os filhos do Carnaval.
Esses podiam ser brancos ou negros, ricos ou pobres, meninos ou meninas. Eram diversos, mas tinham uma coisa em comum: nasciam com um gen específico, incrustado no seu código genético, e humanamente irresistível. Como um vírus incubado, o gen ficava adormecido por anos, e só era despertado lá pelos 14 ou 15 anos, quando seu portador ouvia o estrondo de uma bateria de escola de samba. A marcação do surdo, os pipocos dos tamborins e o gemido jocoso das cuícas faziam a pessoa requebrar, sacolejar e sambar até ficar exausto. O gen, esse dos filhos do Carnaval, só foi mapeado e identificado pelos cientistas há poucos anos, e recebeu uma etiqueta incompreensível: G14253C. Nas ruas e nas casas dos filhos do Carnaval, era conhecido como “gen da alegria”.
Naqueles quatro dias, o que caía do céu em clubes e nas ruas eram confetes coloridos e saborosos. Gotinhas de chocolate fantasiadas de amarelo, azul, verde, vermelho, rosa, marrom, roxo, prata…
Naqueles quatro dias, toda serpentina que o folião lançasse alcançava um novo amor. Envolvia-lhe o pescoço e num movimento rápido, trazia-se para perto de si alguém com os lábios só prontos pra sorrir e beijar.
Naqueles quatro dias, como num decreto federal, era proibido morrer nas estradas, cometer crimes, ofender as pessoas. De forma compulsória, todo cidadão de bem tinha que morrer de rir, cometer loucuras, ofender a tristeza…
Ditador, déspota, tirano, todo-poderoso, mandão… você acha que os sinônimos param por aí? Que nada!
As palavras para designar ditador podem ser mais de cem. Duvida?
Existem pelo menos 112 maneiras de se referir a Kadhafi, o manda-chuva na Líbia há mais de 40 anos e que não arreda pé do poder…
Anos atrás, o título acima indicava mais um ataque fulminante de um jogador fora de série. E quase sempre o final da história era uma rede estufada, uma torcida aos berros, sorrisos de um lado, mãos à cabeça do outro, e alguém tendo que alterar o placar. Pelo que informou primeiro o jornalista Daniel Piza, amanhã, Ronaldo Nazário deve anunciar sua aposentadoria, o fim de sua carreira no futebol. “Lá vai Ronaldo…” será mais um capítulo da história do futebol. Afinal, até mesmo os épicos têm o seu fim.
Além da ironia acima, há outra. Não foi nenhum comentarista tarimbado, um analista experiente ou um repórter de esportes impertinente que deu o “furo jornalístico”. Foi um jornalista da área da Cultura, que gosta de futebol, é verdade, mas seu terreno está mais para as letras e as artes do que a dança que entorna as cadeiras dos zagueiros.
No argentino Olé, eu leio: “Se va un Fenomeno”. Na France Football, “la fin d’un mythe”. O que dirão outros mais?
Frank Maia diz: Dilma não perdoa! Dilma corta mesmo!

Meu filho Vinicius tem seis anos e meio. É um garoto ativo, inteligente, perguntador, como bem convém a um cidadãozinho dessa idade. Convivemos bastante, moramos na mesma casa, mas vivemos em mundos muito diferentes. Essas semanas de férias têm me permitido ao menos espreitar por uma frestinha o que é isso.
Como Vini ainda não sabe ler, sua leitura do mundo é muito visual, e ele confia piamente nos adultos à sua volta. Lemos placas para ele, retransmitidos o que vemos nas legendas de filmes, contamos o que se dá nos balõezinhos das histórias em quadrinhos. Essa confiança permite, por exemplo, que editemos alguns conteúdos das mensagens, não para deturpar ou enganar, mas para fazer com que ele entenda o contexto. Existem gírias que ele não conhece, e só agora está tomando mais contato com a ironia, com o sarcasmo. Aliás, ele começa a se dar bastante bem nisso, o que me deixa particularmente orgulhoso, pois isso é um atestado fiel de sagacidade.
Vini também está se habituando com os números. Rapidamente, fez amizade com os algarismos, já escreve e copia cada um deles, e sabe contar até cem, e tem noções bastante satisfatórias das centenas. Mas o pequeno ainda tem dificuldades com alguns números mais abstratos: milhões, bilhões são só palavras. E para Vini, 100 mil parece ser a maior quantidade possível. Nas suas brincadeiras, algo muito caro custa 100 mil, uma coisa muito antiga tem 100 mil anos, esperar muito é ter que aturar 100 mil horas.
Então, os limites do mundo do meu filho são esses: as palavras escritas não fazem muito sentido; os dias da semana têm uma ordem bem embaralhada; os números terminam em 100 mil.
Apesar disso, do alto de seus seis anos, Vinicius me ensina todos os dias algumas lições ancestrais. Porque confia demais no que dizemos a ele, sempre quando deixamos de cumprir uma promessa, ele nos interpela. “Mas você PROMETEU!”, me olha interrogativo, insultado, vilipendiado. Como quem diz “como é possível alguém fazer isso?”, Vini nos ensina que a palavra empenhada vale mais que a palavra escrita. Verdade, compromisso, confiança.
Quando ele faz algo que contraria o que antes dissemos, me olha interrogado. E ensina: paciência, eu só tenho seis anos. Ensina mais: a bondade de quem é inocente, a humildade de quem ocupa apenas um pedacinho de chão no mundo, a perseverança de quem está apenas começando a caminhada. Vinicius sorri meio sem jeito, com aquele charme que faz derreter glaciares. Parece me dizer: Ah, fala de novo, vai? Vale a pena repetir para que eu aprenda isso. Vai ser legal, você vai ver…
Se você é da área acadêmica, vai se identificar com essa paródia de Lady Gaga. Bad romance vira Bad project, e a vida de cientista é mostrada com bom humor.
Se você não é da área, pelo menos, pode dar risada de quem é…
(Peguei a dica no Bombou na web)
Esse tal de jazz tem umas coisas super curiosas. A exemplo de outros gêneros, você pode encontrar livros que contam a história de um artista ou de um grupo de artistas, mas vai além. Tem também biografia de gravadora, de casa de show e até mesmo de disco. Terminei de ler esta semana A Love Supreme, simplesmente a biografia do disco mais famoso de John Coltrane.
Se você sabe do que estou falando, deve imaginar o que deve ser: um livro para aficcionados, para tarados em Coltrane, um incansável renovador do uso do sax.
Se você está boiando, a coisa é simples: o livro conta como o saxofonista foi reunindo um quarteto célebre para duas noites memoráveis de gravação no mítico selo Impulse. “A Love Supreme” é um disco de 1965, um dos últimos do instrumentista que viria a morrer de câncer no fígado dois anos depois. É um álbum que influencia músicos até hoje e que surgiu num contexto importante da ascensão da cultura negra na sopa cultural norte-americana. Misterioso, espiritual, pungente e extremista, o álbum ainda fascina, mesmo quem – como eu – não sabe nada de música ou teoria musical.
O livro de Ashley Kahn tenta dar conta da atmosfera que cerca os músicos à época de “A Love Supreme”. Por muitos momentos, o livro se torna enfadonho por conta dos muitos detalhes técnicos, mas vale o registro e a busca de um clima daquele momento. Ainda mais para colocar os devidos pingos nos is, afinal Coltrane ainda é um dos jazzistas mais mitificados do mundo. Até igreja tem em homenagem a ele!
Vale a leitura. Mas antes de começar a ler, coloque o disco na agulha…
(Uma amostra grátis: o primeiro “movimento” de A Love Supreme: Acknowledgement)
Esbarrei em “Por um fio” num sebo. Só conhecia o doutor Drauzio Varella da TV, e não de seu bestseller “Carandiru” ou outros menos célebres. Acabei levando “Por um fio” pelo preço convidativo, pelo bom estado do exemplar e por um punhado de palavrinhas bem encaixadas no texto da contracapa. Não cheguei a deixar o livro adormecer duas noites na estante e ataquei algumas páginas.
Nem tanto pela prosa, mas mais pelas histórias, fui ficando e devorando capítulos e capítulos. Para quem ainda não ligou o título à obra, “Por um fio” é um livro de memórias autobiográficas do médico mais famoso do Brasil, um respeitado oncologista que volta e meia aparece no Fantástico ou em programas do gênero. “Por um fio”, no entanto, não é nada digestivo, pelo contrário. As histórias que se colhe por lá são alguns resultados de mais de trinta anos de clínica do doutor Drauzio enfrentando casos complicados, incuráveis e surpreendentemente curados.
Sem cerimônia, o leitor é apresentado a todo tipo de moléstia grave, com especial atenção a cânceres e tumores diversos. Sem alternativa, o leitor desfila pelo corredor que separa vida, morte e sobrevida. Fortes, intensas, emocionantes, inesquecíveis, as histórias são também prosaicas, banais, cotidianas para um médico que carrega nas costas as esperanças de parentes aflitos, as dores pessoais e as perdas com as quais precisa conviver. A medicina ali é mostrada como um campo de batalha sem glamour, mas com muito trabalho. O dia-a-dia dos médicos não é faustoso nem heroico. Os momentos finais dos pacientes, seus humores, seus familiares quase sempre são mostrados com cores cruas, pouco vibrantes. A vida é mais dura, aprende-se logo nas primeiras páginas. A luta pela vida é mais ainda. O câncer atinge o rico e o pobre, mata homens e mulheres, e ataca também a quem o enfrenta, no caso, os médicos. A Aids também se mostra virulenta e epidêmica, cruel e irônica.
“Por um fio” é um bom livro para quem almeja ser médico. É um bom livro para quem quer aprender mais da vida e da morte. Para quem quer se aproximar dessa espécie que convencionamos chamar homem. Isso porque revela imperfeições, fraquezas, incertezas e inconstâncias. Isso porque nos atira na cara a dureza e a sensibilidade, a esperança e o desalento, a vitalidade e a inevitabilidade do maior evento da vida.
Nas pouco mais de 200 páginas do livro, o choro fica espremido entre os curtos capítulos. Contive as lágrimas como quem economiza água. Melhor guardar para quando for justificado. Melhor chorar nos maiores dramas. Ao final do volume, o choro ficou embargado; não veio a apoteose, o clímax. Talvez porque o livro espelhe com forte fidelidade a vida, seus altos e baixos. No capítulo final, o desfecho é dilacerante e simbólico. A cena fica congelada no tempo, suspensa por um único fio. Tão frágil e tão elástico, como se a ele se prendesse o mundo e a vida.
Calma, calma aí. O Monitorando continua no mesmo endereço na web.
Meu escritório é que mudou para a praia. Entro oficialmente de férias agora e as atualizações por aqui podem ser mais esparsas, mais preguiçosas, recheadas de areia e maresia. Portanto, tenha paciência com a gente. A vida tem dessas coisas…
Existe propaganda boa, e existe a ruim. De cabeça, selecionei três anúncios que considerei meio desastrados em 2010. Começo com a do Campari. Notem que ninguém dá um trago na bebida, que ninguém dá uma prazerosa golada. Ao invés disso, as pessoas jogam Campari nos outros… vai entender!
Outro filme incompreensível é este da Chevrolet. Notem que a estrela do comercial é o Camaro, um carro que você pode ganhar se comprar outro…
E este da Pepsi? O comercial começa com um personagem dizendo: “Só tem Pepsi, pode ser?” Como quem diz: “Só te restou esta alternativa. Vai encarar?”
Posso não entender nada de publicidade, mas os caras que criaram esses anúncios sabiam o que estavam fazendo?
ATUALIZANDO: A Joana Ziller manda a sugestão de mais um pra esta lista bizarra. Lembra do anúncio da lama na cara? Forever young, I want be forever young…
O sempre conectado Marcos Palacios manda a indicação de um videozinho muito criativo e bem-humorado. Como seria se Jesus estivesse pra nascer hoje em dia, no meio de tantas redes sociais? Os portugueses do ExcentricPT imaginaram isso. O resultado está a seguir. Veja, por exemplo, o que é seguir a Estrela de Belém…
Ops! Este blog quase está criando teia de aranha! Três dias sem posts na blogosfera equivalem a décadas. Porque a vida não espera, deixo um videozinho de uma banda que não conhecia, mas que Carolina Dantas apresentou: The XX. Inclusive, o tema – Teardrops – foi tomado de empréstimo para as vinhetas do Ponto de Vista do objETHOS.
Geralmente, vai chegando o final do ano e os meios de comunicação abordam tarólogos, astrólogos, pais de santo e videntes em geral para as previsões a partir de janeiro. Bem, serei mais contido, e tentarei antecipar o que me aguarda o destino nas próximas quatro semanas.
Por favor, não ria! Respeite o sofrimento dos outros…
Semana 1: Desespero
É o momento atual, o que significa sobrecarga de trabalho e ausência total de tempo. A certeza compartilhada é de que não seremos capazes de sobreviver ao final do ano. No horizonte imediato, estão dois exames de qualificação no mestrado, uma reunião, três pareceres a serem dados e um jornal-laboratório a ser fechado.
Semana 2: Pânico
A coisa não melhorou. Estão previstas duas aulas e o encerramento de uma disciplina. Some-se ainda dois pareceres para artigos em revistas e a participação num concorrido concurso de jornalismo. Coloque ainda as tradicionais filas nas comprinhas de Natal.
Semana 3: Alarme
Só termina quando acaba! Na agenda, já figuram uma longa reunião de avaliação de semestre, uma banca de trabalho de conclusão de curso, a escritura de um artigo já prometido, alguns compromissos domésticos de final de ano.
Semana 4: Exaustão
É o momento em que a pessoa surta, deixa de acreditar em Deus e, contrariando toda a lógica, passa a rezar para ele mesmo assim. Na agenda, estão as participações em duas bancas de mestrado e em duas qualificações. Em duas cidades diferentes. Mais: reuniões de final de ano, visitas de parentes…
E aí? Tá diferente por aí?
Para caminhantes. Para bons bebedores. Para quem gosta de boas histórias e respeita a tradição. Para todos esses, um vídeo, dica de Carlos Damião:
Vamos?
Assista o videozinho e depois enxugue o queixo, por favor.
Estou em São Luís (MA), no meio de um evento acadêmico, e pelo Twitter sou avisado da morte repentina de um amigo. Aos 45 anos e de câncer. Sim, eu já sabia que o jornalista Fernando Arteche estava doente há meses. Mas sabia também que ele estava lutando bravamente contra essa doença atroz. Dava relatos disso em seu blog, Os Trabalhos e os Dias.
A última vez em que nos falamos foi há alguns meses, num outro evento em Novo Hamburgo (RS). Nos abraçamos e trocamos alguns palavras por minutos. Ele não estava abatido, e exibia o tom saudável que lhe era próprio. E isso não é nenhum exagero. Tenho provas disso.
Há alguns anos, dividimos um apartamento num hotel em Salvador. Novamente, era um evento acadêmico – eu sei, a gente trabalha demais. Estava um sol senegalês, horário de almoço, e o Fernando ia correr na orla da praia. Não acreditei. E ele foi. Correu milhas e voltou levemente arfante. Era um atleta amador, gostava de esportes e amigos; um cara que amava também a vida, o filho e a esposa. Tinha voz doce e abraço apertado. Sorriso franco e pinta de galã. Gostava de música, mas não era muito alto, nem tinha olhos azuis. Era respeitado como jornalista e como professor e pesquisador da área. Era um cara simples, comum e sempre bem-vindo.
O Luís Fernando Verissimo costuma dizer que a morte é uma indignidade. Eu acho a morte uma pena. Uma pena sem fim. Por isso que é uma dor sem palavras a perda do Arteche. Fernando furou a fila. Não se faz isso com os amigos, cara!
Devorei ontem o Manual do Frila, que meu amigo Maurício Oliveira lançou no início da semana. Não me surpreendeu o texto leve e bem humorado, afinal trabalhei com o autor e essa é uma das muitas qualidades dele. Não me surpreendeu a objetividade do livro, afinal a editora Luciana Pinsky – minha editora, inclusive – tem lançado títulos no mercado que se caracterizam por sua utilidade e foco bem preciso.
O que eu não esperava era o imenso despudor do Maurício de não apenas dividir sua experiência como jornalista freelancer, mas de escancarar detalhes tão pessoais e íntimos de seu cotidiano. Nas páginas do livro, sabemos da trajetória do repórter, de seus êxitos e mancadas, de seus filhos e esposa, de como organiza seu tempo cotidianamente, e até mesmo do que pretende fazer após os 40 anos.
O Manual do Frila é declaradamente uma obra pessoal, mas os depoimentos colhidos junto a outros freelancers ampliam sua abrangência. Quer dizer: não se trata de uma biografia, mas o tom confessional do Maurício me surpreendeu. Por uma única razão: tenho menos coragem para me mostrar do que ele.
Mas você percebeu: este post é apenas uma impressão muito particular sobre o livro. Se vale a pena ler? Sim, vale. As histórias contadas são ótimas; as dicas, preciosas; os conselhos, úteis; e o livro vem a calhar, pois a bibliografia brasileira sobre o tema é praticamente inexistente…
Setembro terminou com a volta do seriado mais irônico e bem roteirizado da TV: House, MD. Trata-se da sétima temporada, o que entre os fãs pode significar a continuidade ou não da história. Eu explico: o ator Hugh Laurie, que interpreta o médico do título, teria assinado contrato até o sétimo ano, e há boatos que ele estaria como seu personagem, enfadado e disposto a jogar tudo pra cima.
Fofocas à parte, o fato é que a série voltou com tudo. Vi os dois primeiros episódios e me contagiei com as novidades na trama.
Contrariando todos os prognósticos, House e Cudy estão juntos. Uma crise reaproxima e incendeia os sentimentos. De volta ao hospital, eles decidem informar a todos que estão namorando, o que inclui comunicar formalmente o Departamento de Recursos Humanos, afinal Cudy é a chefe de House. Um receio secreto de ambos é que o romance interfira nas decisões profissionais e vice-versa. Bem, e aí a coisa vai…
Mas o que me chamou mais a atenção é que encontramos um House diferente, permitindo-se uma segunda chance, buscando alguma felicidade. Para isso, contraria algumas das suas convicções, submete-se, o que – convenhamos – é a morte para ele. Mas este House diferente, na minha leitura, é um personagem que está se esforçando para aprender a amar. Isto mesmo: House está tentando aprender a amar. Talvez pela primeira vez efetivamente.
Não é pouco.
Aliás, se formos pensar, os herois desta narrativa têm muita dificuldade no terreno sentimental. House parece se sabotar a todo instante: não cede, é repulsivo e desagradável até mesmo para os amigos; Foreman, sob a máscara da seriedade e soberba, é rude e não consegue cativar Thirteen; Taub vive um casamento tumultuado, cheio de interditos e mentiras; Wilson evita se relacionar desde que perdeu Amber; Chase e Cameron não se acertam por causa de um luto do qual ela não consegue se livrar; Cudy busca se realizar como mãe adotiva ao mesmo tempo em que tenta preencher seu coração…
Diante de tantos insucessos amorosos, parece vigorar uma equação no Princeton-Plaisnboro Hospital: médicos salvam vidas mas não podem ser felizes. Do ponto de vista narrativo, a fórmula rende muitas idas e vindas, mas vendo a sétima temporada me passou algo pela cabeça: se House pode amar, se pode se dar bem nisso, todos os demais também conseguem. Seria uma boa maneira de se terminar o seriado… Não que eu queira, claro. Mas resultaria num bom desfecho, até porque não é novidade nenhuma a certeza de que assistimos a House não pelos sintomas estranhos e doenças raras, mas pelos dramas pessoais dos médicos daquele Departamento de Diagnóstico.
Existem coisas que desejamos por anos e anos; coisas pelas quais lutamos, suamos e quando conseguimos… o que é que fica?
Wile Coyote mostra:
