dois momentos com saramago

Saramago está morto. Saramago está vivo.

No final dos anos 90, o escritor veio ao Brasil – como tantas outras vezes – para lançar livros e receber homenagens. Eu fazia Mestrado em Linguística na Universidade Federal de Santa Catarina, e o Conselho Universitário aprovou a concessão do título de doutor honoris causa à eminente figura. Saramago veio a Florianópolis, e a honraria seria acompanhada por uma conferência sua.

O auditório da Reitoria estava lotado de autoridades – leitoras ou não do velho escritor. O hall da Reitoria também estava apinhado de gente, todos ávidos para ouvir aquela voz calma. Foi necessário colocar telão para que as pessoas que transbordaram o prédio acompanhassem a cerimônia. Saramago esbanjou elegância, humildade, lucidez. Foi emocionante ouvi-lo, mesmo envolto àquela pompa toda e eu tendo que me acotovelar para poder ver os melhores momentos.

Com Saramago, aprendi que a glória é irmã da discrição.

***

Nos mesmos dias, um amigo próximo participou de uma atividade que envolvia o escritor. Em sua estada na cidade, alunos e professores do curso de Letras encontraram uma brecha na agenda do homenageado para um encontro numa sala, pretexto para debates e troca de ideias. Eu não estava lá, mas confio no que me foi contado.

A sessão – que deveria ser informal – insinuou-se para lá de circunstanciosa. Teve abertura e tudo. Saramago, todo sem graça. O que é que estou a fazer aqui, murmurou, passando a mão pelos longos cabelos na nuca. Alguém fez uma pergunta ordinária, e o escritor emendou com resposta igualmente comum. A plateia, digo os convivas, aplaudiram entusiasticamente. Saramago perdeu a paciência, conta o meu amigo que aquilo testemunhou. Se vamos começar assim, melhor que terminemos. Todos ficaram estupefatos, baixaram suas bolas e a sessão passou a ser mais palatável.

Com Saramago, aprende-se que a pompa é uma falsa sombra do reconhecimento.

a solução para tudo

Para mim, esta semana é daquelas que termina mas não acaba.
Tenho tantas tarefas pra cumprir que mal consigo passar por este blog, mal tenho tempo de colocar as leituras em dia, e estou em dívida com um monte de gente que espera algo de mim.

Por isso, me lembrei do esquema abaixo. Ele me foi passado por um ex-aluno, treinado pelos Jedis e por ninjas assassinos. Sagaz, ele descobriu/desenvolveu o solucionador cósmico de problemas. Gostaria muito de usá-lo nesta semana, mas não sou muito corajoso… Quem sabe você usa?

esse aí sou eu…

Nos últimos dias, não tenho parado muito quieto, sabe…

minhas copas do mundo

Como ninguém está falando desse assunto, vou tocar nele: a Copa do Mundo. Mas não apenas desta que está em curso na África do Sul, mas de todas as que já acompanhei. Foram muitas. E milhares de leitores vêm mandando emails e cartas, e acotovelam-se na frente da minha sacada em hordas pedindo que eu conte como foram as minhas Copas do Mundo. Sendo assim…

1970: eu era apenas um pensamento furtivo na mente de minha mãe, que vinha sendo enrolada por papai há uns cinco anos já. Na época, namorava-se um tempão e havia ainda uma segunda chance para alguém retomar o juízo, o noivado. Acompanhei a disputa no México num cantinho do coração da minha mãe. Como eu disse, eu era apenas um desejo…

1974: vi poucos jogos. Aos dois anos, dormia mais do que deveria. E o meu ponto de vista sempre era atrapalhado: eu olhava para cima, para a TV, tentando entender aquela correria toda. Não entendia também porque as pessoas gritavam com aquele aparelho em cima da estante…

1978: fiquei levemente confuso. Por que só a Argentina podia colocar mulheres jogando? Anos depois, descobri que eram apenas hermanos cabeludos.

1982: vibrei e colecionei figurinhas que vinham com os chicletes Ping Pong. Depois da partida contra a Itália, pus a gordinha debaixo do braço e desci a rua até o rapadão que tínhamos na esquina. Foi lá que vinguei os 3 a 2. Foi lá que eliminei a Itália, avancei na competição e sagrei-me campeão mundial na Espanha. No começo da noite, minha mãe berrou meu nome e fui jantar.

1986: comemorei antecipado quando marcaram o pênalti para o Brasil contra França. Quando Zico errou, lembrei-me da mãe dele. Não fechei o álbum da Copa.

1990: sofri porque acreditei. Foi a última Copa do meu pai. Ele desistira de ver o Tetra…

1994: foi uma farra. A Copa de minha época de universitário: bebemorava até a vitória de países cuja capital desconhecia. Sofri na final. Me peguei chorando após Baggio errar o pênalti. Eu era Pelé, em 1958, desabando diante da glória.

1998: sortudo, fui escalado para trabalhar em todos os jogos da seleção no jornal. Não levei muita fé. Acabei assistindo apenas uma partida em casa: a final. Ainda bem que estava deitado.

2002: joguei muita bola com a patroa nas madrugadas daquela competição. Vi a final num boteco perdido em Balneário Camboriú, e estendi a farra desfilando e dançando na avenida Beira-Mar em Florianópolis. Comecei a pensar que seria legal ver os jogos da Copa com um filho.

2006: torci pra França. Gostei da cabeçada de Zidane. Aos dois anos, meu filho dormiu mais do que deveria. Às vezes, ele olhava para a TV, tentando entender aquela correria toda. Intrigou-se com a gritaria e o foguetório.

2010: para mim, esta Copa começa amanhã. Espero não ver meu filho tendo que vingar a seleção no campo da pracinha da esquina…

na metade da metade

Bem no comecinho deste mês, eu me lamentava num post sobre os muitos afazeres que me soterravam.

Duas semanas depois, a montanha de escombros que me encobre já permite ver a luz, mas as próximas semanas são decisivas para fechar dignamente o semestre…

… ainda tenho três turmas na graduação pra fechar;

… um jornal-laboratório para produzir, editar e lançar;

… quatro bancas de graduação e um exame de qualificação em duas semanas;

… tenho que avaliar artigos para um periódico;

… dois artigos para escrever, uma comunicação científica para produzir, e um seminário de pós-graduação para preparar!

Para o alto e avante!

PS – Aproveite e confira o blog do meu amigo Jorge Rocha, o popular Exu Caveira Cover, que ressuscitou!

minha mãe agora tem um 38

Quando eu era apenas um garoto, minha mãe era uma mulher enérgica. Dessas que distribuem broncas e que colocam os filhos na linha. Era nervosa, mas também carinhosa. Sempre teve um senso de justiça e de compromisso muito evidentes, e tinha uma preocupação quase maníaca de passar aos filhos um valor: a honestidade. Parecia não se conformar que esses atributos não fossem herdados geneticamente.

Passados tantos anos, me parece cristalino que ela tenha conseguido tudo o que desejou. Com alguma ajuda de meu pai, criou quatro meninos e os encaminhou para suas próprias vidas.

Hoje, está bem mais serena, e nem é sombra da ira santa que destilava antes. É uma outra mulher, e o irônico é que só agora ela tem o seu primeiro 38. Não me refiro a um par de sapatos nem a uma arma de fogo. É que hoje o seu primogênito cumpre anos, e o que ele vai dizer a ela num telefonema daqui a poucos minutos é que todos os acertos foram delas, e os erros são obras do filho desobediente e teimoso.

38 não é nenhum número especial. Nem a data em si, hoje, é. Mas faz pensar…

Noel Rosa durou só 27 anos e ajudou a mudar a música brasileira. Glauber Rocha não chegou a completar 42, mas fez algo parecido com o nosso cinema. Pelé encerrou a carreira com 37, e já tinha marcado 1284 gols. Madonna, aos 38, já era a rainha do pop, tinha gravado seis álbuns e estava prestes a ganhar a primeira filha.

Bruce Lee e Cazuza morreram com 32 anos. Jesus Cristo com 33. Charlie Parker, 34. Renato Russo interrompeu a carreira aos 36, e Elis Regina com quase 37. Definitivamente, furaram a fila.

Mas 38 faz pensar. Aos 38, Gandhi já era preso por causa de sua desobediência civil pacífica. Com a mesma idade, Hitler respondia pela ideologia e pelas políticas internas do partido nazista, e Gretchen já tinha vinte anos de rebolado.

Aos 38, Carlos Drummond de Andrade publicava Sentimento do Mundo, mas depois ainda viria Claro Enigma, A Rosa do Povo e tantos mais. O poeta estava verde ainda. Aos 38, Freddy Mercury nem imaginava que faria um show como o que fez no Brasil em 1985 no Rock in Rio, meses depois, regendo multidões. Aos 38, Clint Eastwood começava a ser o famoso cauboi dos filmes de Don Siegel, e era só o início. Machado de Assis só publicaria Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas aos 40 anos. Aliás, os melhores filmes de Fellini só viriam mesmo depois dessa idade. A tal da idade da razão.

Chegar, então, a este degrau pode ser apenas alcançar um certo patamar na escada. António Lobo Antunes começou sua carreira de escritor aos 37, por exemplo. Guimarães Rosa só viria a escrever sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas, aos 48 anos. E Leonardo Da Vinci só começou a pintar a sua Santa Ceia aos 43. O grande Cartola gravou o primeiro disco aos 66, e a doce Cora Coralina só publicou o primeiro livro aos 75.

Tudo bem que George Clooney já era George Clooney aos 38, mas só passou a ganhar prêmios importantes e ser respeitado depois dos 40. Por essas e outras é que 38 pode ser uma boa marca, um bom momento, um jeito de começar coisas, de rever caminhos e se refazer por inteiro. Afinal, o mundo não é pequeno, e a vida não é um fato consumado.

dicionário do cansaço: maio

Maio é mês de inferno astral e o começo do fim… do semestre…

Ofereço um instantâneo de minha mesa de trabalho. O que está em cima da mesa sou eu…

5 anos monitorando

Hoje, este blog faz cinco anos de postagens ininterruptas. Criado no UOL, migrou há exatos três anos para o WordPress, e como estamos sendo muito bem tratados, por aqui devemos ficar por mais um bom tempo.

Em cinco anos, muitas coisas mudam, outras amadurecem. Para falar das mudanças, um post só não daria conta. Mas do lado de cá do teclado, permanecem dois sentimentos:

  • o entusiasmo pelo gesto e pelo estilo de vida blogueiro
  • e a imensa gratidão pela sua leitura

Beijos, queijos e caranguejos!

meu filho quer ser “desenhor”

Aos seis anos, eu não sabia nada de nada. Mais de trinta anos depois, a coisa continua na mesma.

Mas não desanimem: novas gerações chegam para salvar o mundo e converter a humanidade numa nota de rodapé relevante no Grande Livro da Vida no Universo. Meu filho, por exemplo, nem completou seis anos e já sabe o que quer. Quando crescer, vai ser “desenhor”. Isso mesmo! Ela vai desenhar, criar personagens novos, colorir o mundo, apagar as coisas ruins, e por aí vai.

Você duvida?

Veja só o que o moleque já apronta com uma folha amassada e um punhado de canetinhas quase-sem-tinta, toquinhos de giz de cera e canetas esferográficas…

(compilado e legendado pela Ana Laux)

lições de inocência com meu filho

Consciente ou inconscientemente, às vezes, me esqueço que meu filho nem completou seis anos. Falo com ele quase tudo, converso de igual para igual, e há quem diga que isso é muito natural: afinal, os dois têm a mesma idade mental, dirão meus detratores.

Mas para além desse detalhe, é o próprio menino quem me alerta quando estou indo rápido demais, quando estou usando palavras incompreensíveis ou quando minhas ideias são completamente irracionais. Ele me olha no fundo dos olhos, seriíssimo, espalma a mão direita, dobrando levemente o polegar para dentro da mão e pergunta. Suas questões são diretas, nem sempre vocalizadas com precisão, pois a boca não acompanha o pensamento. E é aí nesses momentos em que o menino me ensina, me mostra que a inocência está ali, que um estágio superior ao humano pode se manifestar numa criaturinha como aquela.

Alguém, cético até a medula, já diagnosticou que a inocência é um câncer. Mas vá lá! Permita-se relembrar o que é estar inocente, desconhecer, acreditar numa nuvem como chão… Ser inocente é um estado de graça, um átimo de segundo que nos escapa à medida que envelhecemos.

Noites passadas, eu assistia à TV com o pequeno e ele me perguntou onde o apresentador do programa morava. Eu disse que ele era de bem longe, que era um novaiorquino típico. O menino me olhou incrédulo. Me concedeu um, dois segundos. No terceiro, suas sobrancelhas – que são as minhas em miniatura – subiram até a metade da testa. “Então, ele não fala português?”

“Não, ele fala inglês!”

“Mas, pai – mão espalmada para a frente, polegar ajudando a fazer um quatro – mas, pai, ele tá falando português agora. Eu tô entendendo…”

A inocência despencou sobre o meu colo. Entendi que o menino simplesmente ignorava que o programa era dublado. Ele sequer imaginava que havia muita gente por trás daquilo de traduzir, dublar, sincronizar, modular os tons, gravar e substituir a voz original.

Fiz um esforço sobrehumano para explicar a ele que alguém “emprestava” a voz ao apresentador da TV, que alguém falava em português o que era dita anteriormente em inglês. O menino ouviu tudo com uma calma de lama do Tibete. Apenas o par de sobrancelhas dançava pra cima e pra baixo. Os olhos, de repente, se abriram, cresceram, brilharam. O rosto dele ficou todo iluminado. O pequeno não disse mais nada. Mas não foi preciso: eu tinha certeza de que ele estava descobrindo algo novo, novíssimo para ele. Como quem olha o mar pela primeira vez. É a descoberta em estado bruto, seminal, primitivo, sem fingimentos ou arremedos. Dessas descobertas que apenas são o efeito colateral da inocência. Essas descobertas só existem porque descortinam para a gente um mundo novo, um panorama inédito, uma paisagem jamais vista.

Eu sorri para ele, que me devolveu na mesma moeda. Ele entendeu. Eu percebi que tinha testemunhado um instante importante ali. A descoberta dele, a inocência se lhe escapando, a luz do conhecimento apagando a ingenuidade. Isso não durou mais que poucos minutos. Não havia mais ninguém na sala. Não tive cúmplices. Foi tão sensível e duradouro que me fez pensar nisso que escrevo. Nas perdas e nos ganhos; no paradoxo que junta consciência e inocência, feito ímãs. Conhecer é perder a inocência; saber é sepultar a ingenuidade; saber é tornar-se mais familiar às coisas e ao mundo; saber é se localizar melhor no mundo e na vida… Coisas tão importantes e tão desimportantes diante daqueles dois olhinhos me mirando sérios. Olhinhos e sobrancelhas que me fazem agora – solitário num quarto de hotel – escrever essas divagações que apenas um post pode conter.

o nascimento do jazz numa tragédia recheada de blues

São muitas as histórias que cercam a origem da palavras “jazz”. São muitas as lendas que tentam traduzir a palavra “blues”. Numa delas, uma mulher conta que, ao retornar da igreja, numa manhã de domingo, deitou-se na cama e olhou para o teto com um sentimento tão profundo, uma tristeza tão atroz, e este era um sentimento tão blue… O blues virou lamento, virou ruminação, choro contido… O jazz é um gênero que se destaca dos demais pelo improviso e por uma escala musical de DNA negro. Diferente da escala europeia, a matriz do jazz tem uma blue note, uma nota blue.

Como o samba, o jazz e o blues não são apenas sofrimento e tristeza. Mas como no ritmo dos morros, a música dos pântanos, dos bairros negros, do algodoal e das planícies inundáveis tem lá as suas tragédias, as pequenas-grandes tragédias do cotidiano. Sem querer, esbarrei numa delas esta semana. Numa livraria de aeroporto, encontrei “Buddy Bolden’s Blues”, de Michael Ondaatje. O livro estava numa pilha de títulos vendidos a R$ 8,90. Subtexto: não valia muita coisa. Não tanto pelo preço, mas pelo que li na orelha, trouxe o volume comigo, e o devorei em dois dias.

Além de ser assinado por um importante autor – “O paciente inglês” é sua obra mais famosa -, “Buddy Bolden’s Blues conta a história de uma das raízes do jazz, o cornetista negro que imprime seu nome na capa. Mas o livro não é uma biografia, é um romance. Não é apenas ficção, é da linhagem de livros que ignora as fronteiras entre o real e o imaginado, entre o lembrado e o inventado.

Buddy Bolden é uma lenda por vários motivos: tocava seu cornetim de uma maneira tão diferente que ajudou a inventar uma nova música; era talentosíssimo, e nunca gravou; trabalhava como barbeiro durante o dia e tocava em boates à noite; enlouqueceu aos 31 anos e tentou resgatar sua sanidade até os 55, quando deixou-se morrer no sanatório; pouco ou quase nada se sabe dele, e apenas uma foto esmaecida e desfocada testemunha a sua real existência.

Ondaatje se vale dessa espessa zona de incerteza para construir-reconstruir-criar a história de um dos fundadores do jazz. E, claro, com ele, mergulhamos nas ruas insalubres de New Orleans, na virada do século 19 para o 20. Os bairros manchados pelos crimes e pelas contravenções, as hordas de prostitutas, traficantes e personagens que beiram a esquisitice. O ambiente moralmente fronteiriço. A vida difícil, a pobreza material e a riqueza espiritual dos anônimos que ajudam a fundar uma nova página na arte e na expressão humanas.

A tragédia de Buddy Bolden soa como um blues. Há sonho, há amor, há sexo e loucura. O sopro no bocal do instrumento, o coração pulsante, um indisfarçável sentimento de estrangeiridade no mundo. O romance de Ondaatje é tocante e não é preciso gostar de jazz. É bem escrito, bem pesado, e funciona como o dardo cuspido por uma zarabatana: vai direto ao alvo. Zarabatana ou cornetim, tanto faz.

Wynton Marsalis, o mais talentoso trompetista de jazz desde Miles Davis, nasceu em New Orleans, a Meca do jazz. Reverente à tradição de seu gênero e ramo mais evidente de uma árvore jazzneológica, Marsalis mostra “Buddy Bolden’s Blues”, música também conhecida como “Funky Butt”. Feche os olhos e abra os ouvidos.

uma arca sem comandante: um desafio

Em novembro de 20o8, cidades do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, sofriam com enchentes, talvez as maiores da história naquela região. Chovia há dias sem parar e o solo encharcado não absorvia mais nada. A oscilação das marés impedia a vazão dos rios. A ocupação desordenada de morros e encostas e a impermeabilização dos terrenos foram outros componentes que ajudaram a produzir uma catástrofe que matou 135 pessoas.

Em Blumenau, um punhado de jornalistas, blogueiros e cidadãos comuns criaram o Alles Blau, um blog que conectou a cidade ao mundo, noticiando o que acontecia por lá quando os veículos convencionais de informação convulsionavam. Em Itajaí, um homem articulado e com um poder incrível de aglutinação criou uma rede social na internet que tinha como objetivo não apenas difundir informações, mas mobilizar a sociedade local para criar um efetivo sistema de defesa civil. O idealizador desta iniciativa é Raciel Gonçalves Jr., que tem um largo histórico de trabalho voluntário e de atuação em órgãos do poder público. A rede social era a Arca de Noé, evidente metáfora para um ponto de salvação diante de um dilúvio como o que testemunhávamos.

Desde o início, Raciel foi incansável: motivador, incentivador, concentrado e agregador. Criou para si um avatar, O Capitão, que moderava a rede, que a expandia e que convidava a tantos para não só subir ao convés, mas para integrar também a cabine de comando. Foi um belo trabalho!

Acabo de saber que O Capitão se demitiu. Não por cansaço ou por frustração. Mas porque uma rede social precisa ser descentralizada, precisa ter muitos nós operantes e planejantes, e porque o Raciel está assumindo novos desafios. A Arca de Noé está sem comandante, mas não está à deriva. Há muita gente por lá ainda e a força e a capacidade de trabalho e engajamento deles não há de fazer a arca parar. Modestamente, estive no convés algumas vezes, mas minha volta a Florianópolis naturalmente me afastou de Itajaí. Eu ainda sigo a Arca de Noé, sigo amigos e colegas em seus blogs e sites, e ainda tenho raízes na cidade-peixeira. Não poderia deixar de registrar minha admiração pelo trabalho de Raciel – a quem sequer conheço pessoalmente! – e não poderia deixar de torcer pela Arca. Que ela encontre um mar calmo, bons ventos e muitos entardeceres maravilhosos!

mataram o glauco e um pedaço do nosso riso

Que coisa mais sem graça!

O cartunista Glauco e seu filho foram mortos noite passada em Osasco. Teria sido uma tentativa de sequestro, segundo os primeiros relatos. Que lugar é este onde se atira em dramaturgo, onde se mata cartunista, onde se trucida crianças?

Quando assassinam um cara que nos faz sorrir ficamos todos mais tristes. Não há humor que resista.

Acompanho o Glauco há mais de vinte anos. Conheço Geraldão há tempos. Já vi milhares de vezes as tetas empinadas de Dona Marta. Me intriguei como aquele traço apressado, disforme e relaxado poderia ser tão sintético nas piadas… Fui fã (sou fã) de Glauco nos tempos de Los Três Amigos, uma bem sucedida joint-venture que também envolveu o Laerte e o Angeli. Glauco, era notório, tinha o traço mais primário dos três, mas uma vez ouvi da própria boca do Laerte uma história que me desconcertou: as histórias eram escritas e desenhadas pelos três artistas, mas não eram raras as vezes em que Laerte e Angeli não entregavam as suas partes. Quem então copiava o traço e os personagens dos colegas? Glauco! Ele carregava os dois nas costas…

Era uma molecagem entre eles. Sacanagem de meninos. Típico de Geraldão e Geraldinho.

Não tem graça nenhuma matarem o Glauco!

a inteligência deles me impressiona

Eu morro e não vejo tudo.

A mais nova ideia brilhante que mantém o halo sagrado de inteligência dos administradores públicos não vem de Brasília nem de Washington. Vem de Florianópolis. Com medo de andarilhos e malfeitores diversos, a prefeitura da cidade planeja colocar grades ao redor da Praça XV de Novembro. A alegação é que o local, que abriga uma centenária figueira, é local pouco iluminado e mal frequentado. Então, a saída é cercar a praça e, à noite, fechar os portões, impedindo que as pessoas que não têm casa durmam por lá.

O que eu acho da ideia?

Excelente! Isso mesmo. Vamos fechar a praça. E não apenas. Vamos botar fogo nela. E mais: jogar na fogueira os energúmenos que tiveram a ideia.

Pelamordedeus! A prefeitura não pode iluminar mais o local? Não pode determinar à Guarda Municipal que faça rondas por lá? Não pode encaminhar os sem-teto para albergues ou atendê-los de outra forma? Claro que não. Assim, o poder público age como aquele médico que, para curar uma dor de cabeça, decepa o paciente.

Ao invés de ampliar os espaços públicos para o cidadão, a prefeitura restringe os já existentes. Vai ter gente preparada assim pra governar na Pontequepartiu!

quando se tropeça nas palavras

Talvez tenham sido os astecas, mas se não foram, ficam sendo ao menos neste post. Mas os astecas diziam que as palavras caminham. Sim, elas se movem e por caminhos que nem sempre controlamos. Digo isso porque uma porção delas vem me incomodando muito ultimamente. Mas o problema não está nas palavras, mas no uso que as pessoas fazem delas, tripudiando, distorcendo, desapropriando sentidos.

Veja o exemplo de “Colaborador”. Até outro dia, era o cara que dava uma ajuda, que prestava um serviço esporádico. Hoje, pra muita gente, não. Gerentes, diretores, gestores de recursos humanos sorriem dentro de seus colarinhos. Ciosos, dizem que suas empresas têm duzentas, seiscentos, trocentos “colaboradores”. Ora, “colaboradores” uma ova! Os caras são empregados, funcionários, trabalhadores. Salvo melhor juízo ninguém está ali apenas pra colaborar. Pra usar palavras antigas, eles vendem sua força de trabalho por dinheiro, por salários, mesmo que aviltantes, indecentes.

Um baita eufemismo esse o do “colaborador”. Será que os tais gerentes, gestores e diretores pensam que ofendem alguém ao chamá-lo de “funcionário”?

Outro eufemismo é o que me disse outro dia a moça do telemarketing: “Senhor, esta revista foi descontinuada“. Ahn? “Descontinuada, senhor”. Ah, tá, a revista acabou. “Não, senhor, foi descontinuada”. Quase esbofeteei pelo telefone a moça. Será que ela pensa que eu sou idiota? Se a revista não circula mais, se não está disponível, NÃO FOI DESCONTINUADA. Ela simplesmente foi interrompida, extinta, acabada, e  ponto. Tava com vergonha a moça do telemarketing?

Mas pior que essa atitude zelosa de evitar constrangimentos, atritos e melindres, pior é trazer o administrês, o economês para as conversas mais cotidianas e prosaicas. Então, você não melhora mais o relacionamento, você “agrega valor à relação”. Você não é um cara diferente, distinto, é “diferenciado”. É um saco isso! Vai desculpar, mas é dureza ouvir a mãe na escolinha dizendo que o seu pequerrucho tem uma alimentação “diferenciada” e que ela mesma prepara a lancheira, fazendo questão de dar mais “valor agregado” ao suquinho com bolachas…

Às vezes, me faltam as palavras, sabia?

metafísica com meu filho

Do alto de seus cinco anos e meio e do banco de trás do carro, Vinicius veio com essa:

“Pai, o papai do céu é feito do quê? Ele é homem ou é bicho?”

“Não é nem uma coisa, nem outra. É uma força da natureza!”

“Uma força da natureza? Mas ele é feito do quê? Ele não é um homem?”

“Não, não é… é outra coisa…”

“Mas ele não morreu? Aquele da cruz?”

“Não, Vinicius. Esse é o filho dele! O papai do céu é Deus!”

“O papai do céu é Deus!?? Meu Deus!!”

“É…”

“E aquele outro era o filho dele?!”

“É…”

“E por que ele deixou o filho dele morrer?!”

“Não sei, filho… eu não tava lá…”

“Mas, pai! Ele não podia ter salvo o filho dele? Ter dado um raio e pow!”

“…”

“Puxa! Até o Darth Vader ajudou o filho dele…

a confissão de um crime pela tv

Parecia coisa de cinema: um homem marcado pelo tempo, caminhando por um cemitério, com as mãos metidas nos bolsos do sobretudo, os cabelos esvoaçando no vento. Suas palavras secas dando a gravidade devida ao que ele contava: um crime. Parecia um filme, mas não era. Era a vida real, era uma pessoa notória confessando um crime cometido há alguns anos. Era o apresentador Ray Goslin, da BBC, no alto dos seus 70 anos, contando como matara seu ex-amante para ter de lhe poupar sofrimentos indizíveis por causa da Aids.

A confissão feita pela TV deve estar provocando tremores de terra na Inglaterra, além da prisão de Goslin.

Para além do carnaval midiático que se possa fazer com o episódio, me assaltam muito mais as questões éticas ali envolvidas. Não posso deixar de lembrar do caso do filósofo Louis Althusser que asfixiou a própria esposa, Helene, no quarto que dividiam e que lhe causou a pior condenação a que os franceses conhecem: a impronúncia. Em ambos os casos, temos pessoas célebres e aparentemente acima de quaisquer suspeitas ligadas a homicídios de pessoas amadas e próximas. Nos dois casos, temos ações motivadas pela compaixão à dor alheia e o cumprimento de pactos de lealdade extrema. Temos crimes sim, é verdade. Temos a violação da lei, a transgressão de valores, mas a manutenção de outros. Extermina-se a vida para pôr fim à dor, ao sofrimento. Faz-se pelo amor ao outro, para satisfazer um pedido… é a compaixão, o dó, a lealdade, o compromisso, o atendimento a uma súplica de quem se ama. Mesmo que essa resposta se traduza na morte do outro amado…

Nos dois casos, Althusser e Goslin colocam seus nomes no rol dos homicidas, dos degredados, dos imperdoáveis. Do inapelável.

Difícil é defender seus atos, fácil condená-los. Difícil é aceitar o que fizeram, mesmo que os juristas atribuam um rótulo eufêmico: o suicídio assistido. Mas é preciso entender que seus atos não foram intempestivos, irracionais ou impensados. Suas decisões de cunho prático passaram inevitavelmente por seus escrutínios morais. Goslin e Althusser colocaram seus princípios e seus sentimentos na balança de maneira a ver o que mais pesava, o que mais fazia sentido, o que mais preenchia seus corações e mentes. O filósofo e o comunicador, ambos homens vividos e experientes, devem ter consumido noites pensando antes de sufocarem suas vítimas. E talvez essa palavra – “vítimas” – não seja a mais apropriada para as situações. Naturalmente, não devem ter visto seus objetos de amor como vítimas de suas ações, mas vítimas maiores de seus sofrimentos.

O que mais distingue o caso de outro é a confissão pública de Goslin. Segundo colegas de trabalho mais próximos, o apresentador decidiu contar o que havia feito num programa de TV por uma questão de coerência, de lealdade, de fidelidade ao público. Ele preparava um programa sobre a morte e vira tantas fontes abrindo seus corações e contando suas histórias que não achara justo guardar para si a sua própria. Goslin contou. Nunca saberemos o quanto há de interpretação e de espontaneidade no curto minuto de sua fala no vídeo de sua confissão. Como antes, Goslin deve ter pensado muito antes de agir. Meditou, pesou, tomou a decisão. Seu semblante está carregado, seus cabelos dançam ao sabor do vento. Ele nos oferece cada palavra como se oferecesse seu pescoço. Abre o segredo, olha diretamente a câmera e baixa o rosto, compungido. No segundo em que se detém olhando para a frente, confessa como se nos olhasse direto nos olhos. Depois, deixa cair a cabeça e se retira do enquadramento da câmera. São segundo apenas, mas o drama está lá. O drama da escolha ética, o drama de quem tem a coragem de tomar uma decisão, estando ela certa ou errada. Pouco importa ao leitor agora se concordo ou não com a ação de Goslin. Mais relevante é ver como é preciso ter coragem para decidir, para tomar caminhos, para aceitar o vento no rosto após dar o primeiro passo.

Escolher entre matar o amante ou deixá-lo sofrer até que seja naturalmente levado é uma decisão ética. Escolher entre manter o segredo ou confessar o crime diante das câmeras para todos é uma decisão de cunho ético. A vida exige coragem, pois as escolhas precisam ser tomadas a todo o momento. Alguém já falou que a vida não tem ensaio e que se aprende a viver, vivendo. O episódio de Goslin nos confirma tudo isso e nos mostra como hoje, mais do que nunca, os segredos adormecem mas não têm um sono pesado. As câmeras são nossos olhos, são confessionários. As comunidades imaginadas são coletivos de cumplicidade. Os crimes continuam a acontecer debaixo de nossos narizes e pouco ou nada sabemos deles.

É profundamente triste o que aconteceu com Goslin e seu parceiro. Seu drama me assaltou e me impeliu a escrever essas poucas linhas sobre um assunto tão complexo. Um tema que nunca poderia se esgotar num post: esta certeza de que estamos sós em nossos momentos mais verdadeiros, onde se deve refletir e tomar decisões. Incontornavelmente. Indefinidamente.

o selvagem dos livros

Causei revolta, ranger de dentes e olhares desconfiados ao dizer aqui que sublinhava trechos de livros à caneta. Mas alguns corajosos saíram do armário e deixaram comentários no blog, confessando-se também vândalos livrescos que fazem o mesmo. Aliás, na contabilidade rasa, os comentários solidários foram mais numerosos… sinal de que há um exército munido com suas canetas pronto para vilipendiar páginas e páginas por aí…

Mas preciso explicar: não desprezo os livros. Devoto a eles o que o Caetano Veloso dizia dos maços de cigarro: um amor-táctil. Adoro livro novo: o cheiro do papel, a maciez da capa, o barulhinho do farfalhar das folhas, o formato fácil de empilhar… mas há anos venho notando que as coisas vêm mudando e que posso ler em outros suportes… por causa do trabalho, consumo páginas e mais páginas diante da tela de um computador: corrijo trabalhos escolares, leio teses inteiras, reviso materiais, tudo sem apalpar papel… não é só um brio ecológico; é que assim acontece…

Com a chegada dos e-readers, essas reflexões pessoais se tornaram mais agudas. E sim, eu teria um Kindle para ler meus PDFs e carregar levemente uma boa biblioteca. Só não tenho ainda porque sou um duro… (mas aceito presentinhos sem segundas intenções…)

Por isso, o que me interessa é a leitura. Os livros também, mas um dia, é possível que eles sejam deixados de lado, como as fitas cassetes em que a gente gravava as canções favoritas diretamente do rádio… Quando isso acontecerá? Sei lá… até este dia devo rabiscar um milhão de outras páginas…

sou um selvagem, eu confesso

Esta semana, estava num ambiente público à espera de uma palestra, e como o evento não começava, passei a folhear um livro que tinha em mãos. A demora me fez espiar um parágrafo e quando percebi, já estava lendo páginas. Não só: com uma caneta, eu sublinhava trechos que considerava importante.

De repente, me senti perfurado por olhares. Virei do lado e percebi dois rapazes me vigiando indignados. Eles comentaram entre si algo e me apontaram o livro e a caneta em punho. Sim, eu havia sido pego em flagrante delito: eu estava rabiscando um livro. E à caneta, o que significa de forma permanente, indelével, definitiva.

Me passou um filme na cabeça: julgamento sumário, condenação perpétua. Eu seria sentenciado a apagar milhares de páginas que sublinhei com a própria língua…

Para evitar o sermão, me antecipei e fiz um gracejo: “Não adiantou anos e anos de educação. Sou mesmo um selvagem! Não respeito os livros e rabisco…”

Um dos meus algozes sorriu amarelo e emendou: “Eu também fazia isso. Mas percebi que, quando voltava aos livros, os trechos sublinhados me orientavam a leitura, me atrapalhavam…”. Tentei argumentar que eu quase nunca relia livros, mas não adiantou. A condenação já havia acontecido. Perdido por um, perdido por mil e lá fui eu novamente: “Mas fique tranquilo. Este livro não é meu! Eu só rabisco livros dos outros e de bibliotecas públicas!”, menti para alarmar ainda mais. Os rapazes riram, desarmados. Devem ter pensado: “Que babaca!”

Eu corrigiria: Babaca, não. Selvagem! Monstro! Vândalo!

Afinal, eu estava lendo. E leitura é coisa que se deva condenar hoje em dia.

Afinal, eu estava marcando frases e parágrafos que eu queria fichar, guardar, citar em outros momentos.

Afinal, eu me apego às ideias, às palavras e não ao objeto-livro, à coisa. Como diz o João Marcelo Bôscoli sobre a música, se um dia inventarem isso em forma de spray, eu compro, eu consumo. O que me importa é a leitura, o prazer, a possibilidade de conhecer. Os livros deterioram, as páginas se queimam, se rasgam, mas as palavras, ah… essas voam!

Eu sou um selvagem mesmo. Confesso!

200 mil acessos!

Este Monitorando registrou hoje a marca de 200 mil visitas desde 20 de maio de 2007, quando adotamos este endereço.

Como é hábito por aqui, sempre que alcançamos alguma marca importante, prestamos contas:

  • Até agora, foram 1250 posts, incluindo este, e 2190 comentários.
  • O blog começou em 20 de maio de 2005 no UOL, mas dois anos depois na mesma data, migrou para o WordPress, onde está até hoje.
  • Nossa média de visitação diária está na casa dos 200 acessos.
  • O dia mais movimentado por aqui foi o 26 de novembro de 2008, com 2146 visitas. Foi um período difícil pois eu postava relatos pessoais sobre as enchentes no Vale do Itajaí, em Santa Catarina.

Nunca é demais agradecer as indicações, as visitas, os retornos, os links e em especial os comentários. É fato que muita gente transita por blogs, mas são poucos os que dão uma paradinha e deixam algumas palavras. Obrigado, obrigado, obrigado.

(Para celebrar os 200 mil acessos, o Monitorando passa a adotar o template de layout Vigilance, de The Theme Foundry)

jack bauer foi à campus party

O personagem de Kiefer Shuterland está acostumado a resolver todo tipo de problema do mundo em pouco tempo: salva presidentes, mata terroristas, explode bandidos, arrisca o pescoço e não dorme.

Jack Bauer vive apressado. Afinal, pra salvar o dia ele tem só 24 horas.

Não sou o Jack, mas tinha o mesmo período para sair de Florianópolis, fazer uma participação na Campus Party, fugir das enchentes, desviar das filas intermináveis no trânsito paulistano, sobreviver às turbulências e ao lanchinho da Gol e retornar vivo pra casa. Num sentido figurado, Jack Bauer foi até a São Paulo Nerd Week, como rebatizou o evento o Marcelo Tas.

Notas pessoais das seis horas em que fiquei na maior festa da internet do mundo no Brasil.

1. Sim, a Campus Party não tem esse nome à toa. É uma festa de verdade. Junte num mesmo espaço seis mil pessoas que gostam, que se interessam, que trabalham e se divertem com tecnologia. Dê a eles uma banda de 10 gigas para navegarem, um espaço para colocarem suas barracas, um punhado de atrações e estará tudo belezinha. A festa está completa. Por lá, a gente encontra gente de todos os tipos, pois hoje o mundo é nerd, o mundo é geek, é hightech. Vi velhotes, neohippies, headbangers, patricinhas, indies, índios (de verdade), todos com seus notebooks ou desktops invenenados no mesmo pavilhão, suportando-se, aturando-se, tolerando-se e muito além disso: convivendo em grande harmonia. Parecia o Fórum Social Mundial da tecnologia.

2. A infraestrutura do evento é boa, mas pode melhorar em muito. A acústica é um problema sério por lá. Um acontecimento como aquele, com atrações simultâneas, merece um melhor tratamento de isolamento entre as áreas, não para estancar, impedir o fluxo das pessoas. Mas para dar mais qualidade à experiência, permitir que se ouça melhor, que se aproveite ainda mais as ideias circulando. Estive numa mesa em que mal ouvia os colegas ao lado. A plateia fez perguntas e intervenções muito interessantes, mas que só compreendi pela metade. E não foi minha exclusiva surdez. Soube pelo twitter que aqueles que acompanhavam pela transmissão ao vivo ouviam os debatedores com facilidade, mas e quem estava por lá?

Outra coisinha que a organização poderia rever é a venda de bebidas alcoólicas. Não se acha cerveja na Campus Party. Tudo bem que fiquei bem pouco por lá, mas os canais tradicionais me informaram que não era permitir comercializar esse líquido pois era um evento público e livre, onde circulam menores. (Nesta hora, queria ser o Jack Bauer mesmo e ficar frente a frente com o governador Serra e o prefeito Kassab…)

Afora isso, a organização do Campus Blog foi impecável, com eventos acontecendo no horário, com diversidade de perspectivas e um cuidado de quem gosta do que está fazendo…

3. Confesso que esperava uma presença mais agressiva das empresas de telefonia e tecnologia na Campus Party. Esperava ações mais efetivas, abordagens corpo a corpo, e estratégias mais mercadológicas. Isso é apenas uma observação, não uma queixa. Apenas esperava ter que driblar promotoras de venda lindas-e-incovenientes, ou ainda acumular quilos de folhetos totalmente dispensáveis, mas não. Também não ganhei nenhum brinde, exceto um leque da Mercado Livre, afinal o calor estava demasiado…

Gostei de ir à Campus Party. Não ficaria uma semana acampado por lá. Mas um dia naquele ambiente me permitiu conhecer gente que eu só esbarrava na internet, além de alguns que respeitava e admirava há tempos. Isso é o que conta cada vez mais nesses eventos. Foi curto, foi rápido, mas foi bom. Em 24 horas, bati e voltei ileso.

Se eu fosse Jack Bauer sequer tinha entrado. Tem detetor de metais na porta. Eu sei que o Jack sempre arruma um jeito, mas junto com uma porta arrombada sempre vem um monte de encrencas. Pelo menos pra ele…

campus party, lá vou eu!

Como já adiantei, participo este ano da Campus Party.

Estou entusiasmado e ansioso para o debate “Cibercultura e pesquisas sobre blogs e conversações” ao lado da Sandra Montardo, de André Lemos, do Henrique Antoun e com moderação do Sérgio Amadeu. Havia preparado uma fala mais acadêmica e chatérrima. Ontem, uma vozinha interior me aconselhou a mudar o tom. Revisei meus pontos e espero não fazer ninguém dormir a partir das 14 horas…

Alinhavei duas ou três ideias sobre a pesquisa brasileira sobre blogs e sobre jornalismo, a área em que me sinto mais confortável para falar. Devo comentar um pouquinho do que se vem fazendo em termos de pesquisa mais longas no país em outras áreas também, como na Educação, na Comunicação e em Letras/Linguística/Literatura. Não preparei nenhuma provocação, mas talvez as duas ou três ideias que eu compartilhe na mesa causem alguma reação.

Escrevo mais sobre isso na sequência…

mas também não compre na koerich!

Se você acompanha este blog, percebeu que só nesta semana me incomodei comprando nas lojas Salfer e nas Casas Bahia. Mas não foi só isso. Me irritei também nas lojas Koerich. Por quê?

No dia 30 de dezembro, fiz uma compra numa loja da rede em Itajaí. Foram três peças de cozinha, R$ 800,00. Como de costume, escolhi bem, analisei as condições e informei que os móveis deveriam ser montados em Florianópolis (onde há lojas da mesma rede). “Sem problemas”, disse o vendedor que me informou que os móveis seriam entregues dia 5 de janeiro e que a montagem seria no dia 11. Paguei à vista.

Realmente, os produtos foram entregues no dia marcado, mas nada de montagem, e hoje é dia 14 de janeiro.

A Koerich tem um serviço de atendimento ao consumidor. Não é um 0800, eles não pagariam para te atender. É um 0300, mas não se iluda: não funciona. Liguei muito, conversei com várias vozinhas simpáticas e nenhuma foi capaz de resolver o meu problemas.

Por isso, digo: NÃO COMPRE NAS LOJAS KOERICH!

A menos que queira se irritar, que queira ser ignorado e desrespeitado como consumidor.

ATUALIZANDO: De repente, vieram montar meus móveis. Não foi mais do que obrigação: a raiva continua!

não compre na salfer!

Não existe nada que me deixe mais indignado que ser destratado como consumidor. Nada!

Por uma razão muito simples: as pessoas são constantemente, cotidianamente, frequentemente desrespeitadas por empresas, fornecedores e prestadores de serviço. Por isso, é importante não guardar para si os episódios que nos diminuem, que tentam esvaziar nossa dignidade. Mesmo que não resolva muita coisa, contar o que aconteceu é uma forma de alertar outras pessoas e fazer registro…

Por essas e outras, advirto: NÃO COMPRE NAS LOJAS SALFER! A menos que queira se incomodar…

No dia 29 de dezembro, fiz uma compra numa loja em Itajaí. Eram três produtos, quase R$ 1,8 mil. Escolhi bem, analisei as condições e informei que os móveis deveriam ser montados em Florianópolis (a apenas 90 km de lá e numa cidade onde existem ao menos duas lojas da mesma rede). O vendedor disse “sem problemas”. Paguei à vista. Hoje é dia 14 de janeiro e até agora, nada de montagem dos móveis. Nada!

Nesta semana, liguei para deus e o mundo nessa loja e me empurraram para todos os lados. Xinguei, gritei, falei palavrão para atendentes, gerentes, supervisores. Protestei contra o descaso, me queixei da demora. Fizeram promessas, mas até agora, nada!

Por isso, repito: NÃO COMPRE NAS LOJAS SALFER!

A menos que queira se irritar.

ATUALIZANDO: Como que por encanto os caras vieram montar meus móveis. Mesmo assim, demorou duas semanas e uma vida inteira de estresse. A má impressão continua!

um clipe, lá do fundo da memória

Há quem teorize sobre as lembranças. Há quem pesquise sobre elas. Existem ainda aqueles que só se assombrem diante das próprias memórias. Estou entre esses. De repente, esta semana, ouvi uma música lá do fundo das minhas recordações. Na verdade, era um clipe que eu havia assistido no Fantástico: Roberto Carlos cantava As Baleias, em 1981.

Sim, eu sei. Roberto Carlos é brega, é coisa de velho, está fora de moda… Sim, ele pode ser um intérprete ultrapassado, um ícone restrito a uma camada de fãs, mas o cara é um compositor maiúsculo.

Veja o clipe abaixo com os olhos fechados e os ouvidos bem abertos. Você vai entender porque… é simplesmente lindo…

é Claro que é roubada!

Alegria de pobre evapora diante dos olhos!

No finalzinho do ano, fiz uma comprinha nas Casas Bahia. Estava de mudança e precisava de uns utensílios pra casa. Acabei gastando uma grana e o seu Samuel Klein, muito bondoso, me deu um celular de graça. Fiquei exultante. Fui saltitando pra casa, afinal, ganhar um celular… ninguém tem celular, sabe como é!

Pois liguei o aparelho e lá veio a primeira surpresa: o celular era da Claro. Isto é, o seu Samuel me deu um celular bloqueado.

Fui até uma revenda da Claro para desbloquear a coisa, já que tenho conta da Tim. A revenda não fez o serviço: “Só as lojas da Claro é que têm o segredo pra desbroquear”, me disse o diligente atendente. Persisti. Na loja da Claro, o atendente impertigado me pediu a nota fiscal do produto. Mostrei para ele, que fez cara de nojo. Deve ter pensado: “Mais um cliente trouxa do seu Samuel…”.

Do alto do seu poder de decidir se desbloqueia ou não um celular, o atendente me cuspiu na cara: “Esse aparelho só é desbloqueável um ano depois da compra!” Como assim? Não pode! E a tal da portabilidade? “Ou é depois de um ano ou a Claro cobra R$ 20,00 por mês faltante”. Como assim? Não vou pagar R$ 240,00 para desbloquear um celular que na nota tem o valor de R$ 52,00. “Mas este é o sistema, senhor!” Sistema de merda, eu disse educadamente. Não vai fazer, então? Tá certo. Você trabalha pra máfia, rapá! As operadoras telefônicas são máfias, devolvi a cuspida.

Eu nem queria um celular novo…

Resumo da ópera: o seu Samuel não me deu um celular. Me deu uma algema da Claro.

campus party, eu vou!

São Paulo sedia mais uma vez o maior evento informal da internet do país e um dos maiores do mundo, a Campus Party. Planejei participar nos últimos dois anos, mas por uma série de fatores não pude estar no lugar onde todas as mentes se conectam, todos os downloads são possíveis e onde a taxa de upload demonstra que a internet é mesmo mais criativa e compartilhadora do que qualquer outro projeto humano.

Por isso, estou bastante feliz com a perspectiva de estar no meio de milhares de campuseiros. Como estou em processo de mudança, apenas darei um pulinho por lá, mas quero postar alguma coisa seja por aqui ou pelo twitter. Participarei do painel “Cibercultura e pesquisas sobre blogs e conversações” ao lado da Sandra Montardo, de André Lemos, do Henrique Antoun e com moderação do Sérgio Amadeu. O convite partiu do Edney Souza que explica no vídeo abaixo como estará a programação da área de blogs…

Se você quer saber mais, acesse o site do evento (aqui), acompanhe o blog da Campus Party (aqui) ou ainda consulte a agenda (aqui).

2010 já é!

O ano que começa hoje já começou antes do seu primeiro minuto. Começou num pensamento furtivo, numa esperança que me escorreu dos dedos, num sonho que alimentei outro dia. 2010 já é. Pessoalmente, inicio o ano e a nova década muito bem. Depois de seis anos, retorno à cidade mais maravilhosa do mundo: Florianópolis. Retorno em definitivo, espero, à cidade que viu meu filho nascer, me viu sorrir sem dó pra vida, me recebeu como a um nativo.

Inicio 2010 na cidade que amo, no emprego em que sonhei, com a mulher que desejei, e com o astral batendo no Everest. 2009 foi bom, 2010 será melhor. Se os céus puderem me ouvir, faço três pedidos: saúde, paz de espírito e bom humor.
Tudo isso pra mim e para os que me rodeiam. O resto, bem, o resto xácomigo!

2010 terá feriados, dias ensolarados, noites maravilhosas, e pra completar vai começar numa sexta, feriado, e com lua cheia.
Quer mais?

Feliz ano novo, leitores!

(Este blog pode ficar fora do ar nos próximos dias por problemas de conectividade)

2009: uma retrospectiva muito pessoal

2008 foi um ano difícil. Já 2009 foi um tempo de conquistas e de batalhas. Como estamos em fins de dezembro, cabe um balanço, uma avaliação do período. Por isso, ofereço a seguir uma rápida retrospectiva. Siga-me se for capaz!

Janeiro: Comecei o ano com turbulências domésticas. Todo o mundo tem problemas, mas iniciar 2009 com esses tremores me fez decidir dar mais tempo à família o que me obrigou a dizer uma série de “Não” nos meses seguintes. A vida ensina, e na maioria das vezes, as decisões que tomei foram as mais acertadas. Em janeiro, fiz rapidíssima viagem a Brasília para iniciar uma parceria de pesquisa com a Unesco que se mostrou muito rica e interessante. Neste mês, ingressei na minha fase Apple e com o primeiro MacBook. Um deslumbre!

Fevereiro: Mês lotado de reuniões e entraves burocráticos. Nem parecia mês de Carnaval. As aulas começaram pra valer – três disciplinas na graduação! -, mas antes dei uma fugidinha para São Paulo e assisti a um dos meus irmãos casar. Festerê em família. Acertei com a Unesco para atuar como um dos consultores numa pesquisa sobre indicadores da qualidade jornalística.

Março: Duas orientandas do Mestrado em Educação defenderam suas dissertações, o que me deu orgulho e satisfação. Dei início a um tratamento dentário que me deu despesas indigestas. Comecei a migração de nove anos da revista Contrapontos para um portal exclusivo, o que significa dizer transferir manualmente quase 300 artigos. Sem bolsista ou técnico de apoio, passei uma temporada no inferno da Informática, só não tive LER/DORT por sorte. Me decepcionei com a não realização de um curso de especialização que planejei. Sem alunos suficientes, a pós em Mídias Digitais não saiu do papel… Comecei a me preparar para um concurso público na UFSC.

Abril: Mês de orientações constantes a quatro monografias. Páginas e mais páginas de leitura num ritmo alucinante. Fui a Belo Horizonte para o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, revi amigos e fiz contatos excelentes. Assumi a coordenação do Prêmio Adelmo Genro de Pesquisa em Jornalismo: uma trabalheira insana!

Maio: Mergulhei em leituras sobre ensino de jornalismo. Tudo porque queria participar mais ativamente das discussões para a reforma das diretrizes curriculares nos cursos de jornalismo. Cheguei a participar de uma das audiências públicas em São Paulo, e escrevi diversos posts e artigos sobre o tema. Dei uma escapadinha para ir ao Intercom Sul em Blumenau.

Junho: Sofri com ataques ferozes de rinite. Cheguei a consultar um alergista, mas como sou teimoso não dei bola pro doutor. Fiz 37 anos e meu filhote fez cinco. Pensei mil vezes: tô ficando velho. Foi um mês intenso e de oscilação nas emoções: tristeza intensa e felicidade avassaladora. Assisti com pesar a queda no Supremo Tribunal Federal da obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Passei por uma maratona de provas no concurso da UFSC e fui aprovado em primeiro lugar. Era o final de um ciclo de dez anos na Univali…

Julho: Não tive um segundo de descanso. Fechei disciplinas, engatei em reuniões e preparei planos para o segundo semestre. Ao mesmo tempo, fiquei de sobreaviso pela nomeação na UFSC. Fechei quatro monografias de conclusão de curso e vi meus quatro orientandos passarem bem por suas bancas. O segundo semestre começou e lá fui eu novamente…

Agosto: Comemorei diversos aniversários na família que tem uma penca de leoninos (entre os quais, a minha amada). Fui nomeado na UFSC, me despedi da Univali e parti para novos desafios profissionais no melhor curso de Jornalismo do Brasil. Um deles foi ter paciência no trânsito que liga o continente à parte insular de Florianópolis. Cheguei inclusive a bater o carro. Azar…

Setembro: Trabalhei intensamente com outros três colegas na pesquisa sobre indicadores da informação jornalística. Consegui quitar minha casa e me tornei um feliz proprietário: o sonho da casa própria é mesmo universal! Dei início a um novo projeto: o Observatório da Ética Jornalística, objETHOS. Fiz palestras em Novo Hamburgo (RS) e Piracicaba (SP): esse pessoal não tem juízo não?

Outubro: Trabalho, trabalho e só trabalho. Eu nem vi o mês passar…

Novembro: Publiquei a primeira edição da revista Estudos em Jornalismo e Mídia sob minha responsabilidade. Publiquei com meus alunos de graduação um número do jornal laboratório Quatro. Concluí as aulas de três disciplinas e fiz arremates finais no projeto da dissertação de meu orientando no Mestrado. Arrumei encrencas com um vizinho.

Dezembro: Sonhei com o tetracampeonato brasileiro do São Paulo, mas assisti a taça escapar pelos dedos… Afundei em bancas e reuniões. Concluí um curso que fiz à distância sobre ferramentas digitais para professores de jornalismo. Vi meu nome entre os novos bolsistas em produtividade no CNPq. Suei nos primeiros dias de um verão que promete. Comecei a afivelar nossas malas para uma mudança de endereço: de volta a Florianópolis, sonho de anos…

Como adiantei, 2009 foi um ano de batalhas e conquistas. Que 2010 seja também inesquecível, definitivo e maravilhoso. Para mim, para os meus, e para você que me acompanha por aqui.

este blog não parou…

Se você é um dos seis ou sete leitores que me acompanham por aqui deve ter notado que não tenho postado nada há quase uma semana. Calma. Não arranque seus cabelos, não cometa nenhuma loucura, não recorra ao Procon. Este blog não parou.

Só estou tentando terminar um dos semestres mais agitados da “história defe paif”…

Já, já, eu volto.