the last trip, na trip

Tenho conversado com alunos e profissionais da área que hoje se fala em crise dos jornais, em fim dos jornais – e nos casos mais estridentes, em fim do jornalismo -, mas não se fala de fim das revistas. Talvez por uma razão muito simples: há tempos, as revistas levantaram seus fundilhos da cadeira e estão correndo atrás de saídas. Isso mesmo, as revistas são para os meios impressos o que os seriados são para a indústria audiovisual: um oásis de ousadia, de criatividade e de inteligência.

Na telinha e na telona, os seriados são o que temos de mais interessante e empolgante, dando um banho no cinema, e criando franquias de produtos e bens simbólicos de muito sucesso. Os arrasa-quarteirões hollywoodianos têm seu lugar no mercado, movimentam milhões de dólares e espectadores, mas têm se ressentido de acomodação e dogmatismo. Já disse aqui que o jornalismo poderia aprender bastante com os seriados de hoje em dia…

O mesmo acontece na indústria dos meios impressos. E aqui não falo mais tão somente de mídia, mas de jornalismo mesmo!

Os jornais queixam-se da queda das vendas, da migração de verbas publicitárias para outros meios, da redução de tempo de leitura, mas pouco ou quase nada têm feito para se reinventar. As revistas, por outro lado, trabalham em consonância com pesquisas de opinião pública e estudos de satisfação; buscam nichos bem específicos e os exploram – no bom sentido – até as raízes; promovem reformas gráficas e editoriais; e radicalizam em algumas boas idéias. Cito uma que está nas bancas: Trip.

michael_velhaoFaz tempo que a Trip vem fazendo um jornalismo inventivo, inteligente, ousado e coerente, acima de tudo. É uma publicação voltada a um público good vibes, que tem a mente aberta, preza pela saúde e por um modo de vida saudável-consciente. Por isso, a revista não aceita nem veicula anúncio ligados à industria tabagista. É uma questão de princípios, já martelou diversas vezes o publisher Paulo Lima. É uma publicação que tem uma estratégia simples e inteligente para ganhar visibilidade nas bancas: todo mês, chega às prateleiras com duas capas. Com isso, faz uma jogadinha de marketing de “dar escolha” ao leitor e ocupa dois espaços nos displays. Não bastasse tudo isso, a revista adotou uma linha editorial que a permite ser temática a cada mês, explorando temas e assuntos à exaustão.

Na edição de agosto, me chamou muito a atenção a coragem da equipe. O tema é, nada mais nada menos, a morte. Um assunto delicado, indigesto, complexo. As pessoas – exceto as que vivem disso! -, as pessoas geralmente não buscam a morte, não procuram esse assunto, e na verdade, fogem dele. Por medo, por convicções íntimas ou por escolha. Morte é um tema do qual se evita falar. Mas a Trip de agosto não só abordou a morte de forma séria e também bem-humorada, como até mesmo inusitada. A morte é tratada não só como o fim da vida, mas como sua transcendência, uma fase, uma transformação. Por isso, a revista convidou Fujocka, um mestre no tratamento de imagens, para projetar como estariam alguns de nossos ídolos hoje caso não tivessem ido para o outro lado. Nem o finado mais ilustre dos últimos tempos, Michael Jackson, escapou. Basta ver aí ao lado a reprodução de uma das capas oferecidas ao público.

Mas o que achei mais impactante foi a matéria em que a revista reproduz fotos do projeto de Walter Schels, que clicou 24 pessoas momentos antes de morrer e logo depois da partida. Todos os retratos foram consentidos, e a esposa do fotógrafo colheu depoimentos dos sujeitos, dando testemunhos de vida e morte. A Trip republicou parte do material, tomando quase a totalidade das páginas dedicadas à matéria. Se você ficou curioso, pode ver aqui. Mas a versão do site não se compara à qualidade do material impresso, com altíssima resolução, contraste perfeito e uma carga dramática avassaladora. A Trip nos apresenta fotos de cadáveres numa outra dimensão. Ela nos mostra a morte, nos esfrega a morte na cara, nos incita a vê-la. E leitor passa por aquilo, como quem passa pela vida.

Isso é ousadia. É coragem, e a vontade de fazer jornalismo e revista de uma forma diferente sempre. Os jornais – os nossos e os de fora, que sofrem fortemente com a tão alardeada crise – poderiam abrir os olhos para esses exemplos…

comissões de ética: unificar procedimentos é um bom começo

Passou despercebido da maioria, mas a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) publicou recentemente em seu site um documento que deve padronizar o trabalho das comissões de ética dos seus sindicatos. O novo regimento não se aplica à Comissão Nacional de Ética, mas às instâncias estaduais, o que sinaliza um movimento unificador de procedimentos, algo inédito até então. Antes disso, havia disparidades entre os sindicatos tanto na composição dos membros das comissões quanto na sua nomenclatura e mesmo nos trâmites internos.

Inicialmente burocrática, a publicação do novo regimento pode ser vista como um passo na direção de ações mais contundentes no que tange a ética jornalística no Brasil. Pois uma entidade do alcance da Fenaj – e mesmo a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) – pode contribuir de forma mais incisiva para o aprimoramento de práticas e condutas dos profissionais do jornalismo.

Pessoalmente, sempre fui um crítico do pouco uso das comissões de ética. Em 2001, em “Monitores de Mídia: como o jornalismo catarinense percebe seus deslizes éticos” (Ed. UFSC e Univali), apontei uma certa invisibilidade das comissões de ética tanto pela categoria quanto pela sociedade. Indaguei repórteres e editores sobre seus conhecimentos acerca de regras deontológicas e deslizes de colegas. De forma unânime, os respondentes se diziam conscientes do Código de Ética do Jornalista Brasileiro, mas pouco ou nada sabiam do funcionamento das comissões dos sindicatos e mesmo da Fenaj. Isto é, temos um nó na questão: se as comissões não são visíveis ou conhecidas, como as denúncias de condutas questionáveis eticamente são avaliadas? Se as comissões não iniciam procedimentos de julgamento de conduta, a impressão que fica é de que está tudo muito bem, e as comissões deixam de ter função, o código de ética repousa na gaveta das redações e profissionais faltosos incorrem em novos erros.

Em 2005, em “Jornalismo em Perspectiva” (Ed. UFSC), voltei a bater na tecla da necessidade de as comissões de ética se estruturarem, pois são elas as instâncias judicantes, que têm a função de zelar e aplicar o código deontológico.

De lá pra cá, não se pode dizer que nada tenha mudado. Em 2007, após um intenso debate nacional, a Fenaj aprovou em assembléia um novo Código de Ética do Jornalista Brasileiro. Agora, a entidade tenta uniformizar os procedimentos das primeiras instâncias de julgamento nos sindicatos. Para começar, são bons passos, mas é preciso ir além. Códigos e comissões são importantes para a profissionalidade, mas as mudanças de cultura demoram mais tempo, dependem da conjugação de esforços e investimentos diversos.

Em termos formais, as comissões de ética dos mais de trinta sindicatos ligados à Fenaj terão que se ajustar à normativa recém-editada. Mas só isso não trará novos resultados. Os sindicatos precisam entender que as comissões de ética podem ser mais do tribunais profissionais. Elas podem atuar como fomentadoras de debates, promotoras de cursos de aperfeiçoamento e formação, mobilizadoras da categoria para discussões maiores, que transcendam os interesses corporativos. Temas como corrupção na sociedade, liberdades individuais, transparência na coisa pública, valores morais da coletividade, todos esses podem ser tratados pelas comissões de ética, apoiados em debates mais amplos.

Para além de uma instância punitiva, as comissões de ética podem se tornar células de difusão de valores e pensamentos jornalísticos mais afinados com o interesse público e com a natureza social da profissão. As comissões de ética podem funcionar não apenas motivadas por denúncias, mas também proativamente. É a inversão de um pólo: a comissão deixaria de ser reativa para ser ativa. Com isso, contribuiria para disseminação de valores que se sedimentam na cultura das organizações e na cultura profissional com tempo e perenidade.

Mas para uma mudança como essa, não basta apenas um regimento. Os sindicatos precisam organizar melhor as comissões de ética, garantir-lhes condições de trabalho e operacionalidade, enfim, destinar recursos logísticos e financeiros. Assim, talvez, as comissões deixem de ser invisíveis, operem com mais naturalidade e não passem tão despercebidas.

a diferença que um mês faz no futebol

Há exatamente um mês – no dia 19 de julho -, eu choramingava neste blog sobre a campanha pífia do São Paulo nas diversas competições. Eu dizia: a coisa tá feia pelos lados do Morumbi, e me fazia passar por um momento PVC, destilando estatísticas que mostravam que nos últimos 15 jogos, o Tricolor acumulara 7 derrotas, 5 empates e apenas 3 vitórias.

Um mês depois, a coisa mudou, é verdade. Vamos aos números:

  • 19 de julho: ganhou do Santos em casa.
  • 22 de julho: empatou com o Internacional no Beira-Rio
  • 26 de julho: venceu o Barueri lá.
  • 30 de julho: ganhou do Grêmio por 2 a 1 no Morumbi.
  • 2 de agosto: fez 1 a 0 no Vitória no Barradão.
  • 5 de agosto: 3 a 1 no Botafogo em casa.
  • 9 de agosto: repetiu a dose no mesmo palco contra o Goiás.
  • 16 de agosto: foi à Ilha do Retiro e venceu o Sport por 2 a 1.

Resumo da ópera: 8 jogos, 7 vitórias e um empate. Tem mais a ver com o meu time. Ainda mais que hoje, enfrenta o Fluminense no Morumbi, com o retorno de Rogério Ceni (857 partidas pelo clube). Ceni de volta à cena. A conferir…

órgão fiscalizador da ética jornalística no reino unido terá que se reinventar

A informação saiu hoje no Observatório da Imprensa, de onde reproduzo parte:

A Press Complaints Commission (PCC), órgão que fiscaliza a imprensa no Reino Unido e encaminha queixas do público contra jornais e revistas, engaja-se agora em uma batalha própria para convencer os críticos de sua utilidade. Diante de acusações, por conta de casos recentes envolvendo questões sobre ética jornalística, de que o órgão seria um “elefante branco”, sua nova presidente, Peta Buscombe, quer provar que a indústria é capaz de se auto-regular. Para tanto, encomendou a um grupo independente uma revisão das operações da PCC – o que não ocorria desde 1991. “Temos que assegurar em todas as partes do espectro político que somos responsáveis e robustos o suficiente” para evitar a ameaça de uma regulação externa, disse.

No Brasil, não temos nada parecido, já que não existe um Conselho Federal de Jornalismo ou uma instância semelhante. Temos as comissões de ética dos sindicatos dos jornalistas e a da Fenaj, que, aliás acaba de reformar seu regimento interno (assunto de que falarei mais adiante. ATUALIZANDO: já tratei aqui). Mas não existe um órgão que proponha auto-regulação entre os jornalistas. Os publicitários têm o Conar. Não sei se funciona, mas a sua existência já sinaliza uma disposição de colocar os dedos nas feridas, que não são poucas…

pesquisa científica cresce a passos largos, aponta censo do cnpq

O CNPq divulgou no último dia 12 os resultados mais expressivos do Censo de Grupos de Pesquisa, e os dados apontam para crescimento no número de doutores e coletivos científicos. A pesquisa levou em conta os grupos cadastrados na Plataforma Lattes, diretório criado em 1993.

Veja alguns números do censo 2008:

  • 422 insttiuições participaram da pesquisa
  • Estão registrados na plataforma 22797 grupos de pesquisa, reunindo mais de 104 mil pesquisadores
  • Mais de 63% são doutores. Eles são 66685 em todo o país.
  • Se comparado a 2002, os grupos de pesquisa cresceram em 50%, e o número de doutores em 94%
  • A região Norte foi a que mais cresceu no período: 176%
  • Foram contabilizadas mais de 86 mil linhas de pesquisa
  • Mulheres avançam. As pesquisadoras já são 49% do total.

Mais informações aqui.

um domingo com radiohead

Porque é domingo e porque a preguiça tenta me tirar da frente do trabalho…
Porque é domingo e porque Radiohead é genial e depressivo, mas lírico e único…

Por isso, me lembro de dois clipes:

Paranoid Android

No surprises

um sábado com laurin hill

Existem dias em que a gente acorda com uma canção martelando a cabeça. Neste sábado, foi Laurin Hill quem soprou-me essa “I find it hard to say”. É uma performance memorável…

prêmio adelmo genro filho encerra inscrições com participação recorde

A quarta edição do Prêmio Adelmo Genro Filho de Pesquisa em Jornalismo superou as expectativas de participação dos seus organizadores. Encerradas as inscrições no último dia 10 de agosto, a coordenação do PAGF contabilizou 36 concorrentes nas três categorias: Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado.

Pesquisadores de todas as regiões brasileiras enviaram seus trabalhos, e número de inscritos já é o maior desde a criação do prêmio pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), em 2006.  Registramos a participação de 26 instituições de dez estados. São concorrentes de cursos novos e tradicionais, de instituições de ensino públicas e particulares. Essa diversidade reflete que a produção científica em jornalismo já está bem disseminada no país, completa.

Ainda nesta semana, os trabalhos inscritos para o PAGF2009 serão encaminhados para as comissões avaliadoras. Os resultados serão anunciados no início de outubro, e os vencedores receberão seus prêmios em novembro, durante o 7º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, que acontece na USP, em São Paulo.

como é que se diz “adeus”?

Sim, de uma forma ou de outra, este é um post de despedida

Ontem, foi minha última noite de aulas na Univali, instituição onde leciono há dez anos. Não foi uma daquelas aulas especiais que você prepara há muito tempo, nem uma prova inesquecível. Foi uma noite comum. Atendi alunos, tirei dúvidas, conversamos sobre projetos de final de curso, sobre pesquisas a serem realizadas, temas para reportagens, enfim, foi uma noite comum. Como se nada estivesse para acontecer.

Na verdade, nada estava mesmo. Apenas para mim, afinal sou eu quem estou me despedindo.

A noite voou, falei com muita gente, e voltei para casa com um sentimento de que algo não havia se fechado. Pelo menos inconscientemente, eu esperava um fechamento nas aulas de minha parte, uma despedida formal, nem sei mais. Mas hoje cedo, tudo me pareceu tão perfeito e bem amarrado! Ter a última noite como uma noite qualquer é ter a clareza de que a vida continua, de que as coisas mais importantes estão nos detalhes de todos os dias, em toda hora, e que não se pode perder a chance de aproveitar tudo isso. Ter a última noite sem uma despedida formal é muito melhor, pois me permite fazer de visitas extemporâneas, acontecimentos corriqueiros e informais.

Mas por que tantas sentimentalidades neste post?

Ora, completei dez anos de Univali no começo deste mês. Dei aulas para mais de mil alunos neste tempo todo. Lecionei em onze disciplinas diferentes. Orientei quarenta alunos na graduação e pós-graduação. Trabalhei muito neste tempo todo, muito mesmo. Enfim, aprendi e vivi demais nesses anos todos. Foi aqui que aprendi a ser o que sou no mundo da pesquisa, do ensino, na esfera da academia. Tive aulas com alunos, com funcionários, com colegas professores, que puderam me ensinar as coisas do Jornalismo, as coisas da vida, a matéria dos sonhos, os conteúdos secretos dos seres humanos… Aprendi e cresci! E sou muito grato por tudo isso. Dez anos são uma vida, e não se joga tudo isso assim pela janela…

Mas não há tristeza, mas satisfação. Não há dor, mas desapego. Não há incômodo, mas o sentimento-sem-preço de missão completa, de ciclo concluído.

Gosto das metáforas que fazem da vida uma jornada. Isso nos faz ver que a viagem interessa muito mais do que os destinos. Levando isso em consideração, me vejo dentro de um trem em movimento. Estou deixando um vagão para ingressar em outro, mas a direção é a mesma, a composição está ali. Diferente de outras despedidas, esta não é como uma morte. Não, é uma continuidade. Sigo para um outro vagão da longa composição, mas me alegra ver que o vagão que estou deixando continua forte, em movimento, no mesmo sentido. Não há porque dizer “adeus”. Digo então: “boa viagem para todos nós!”

conteúdo versus jornalismo

O sempre conectado Mark Briggs posta hoje no seu blog uma discussão que inferniza cabeças nas redações e na academia: a produção de conteúdo genérico por usuários não profissionais ameaça o trabalho profissional do jornalismo, consagrado nas últimas décadas?

Leia aqui, na íntegra.

prêmio adelmo genro: termina hoje o prazo

Termina hoje às 24 horas o prazo de recebimento de inscrições para o 4º Prêmio Adelmo Genro Filho de Pesquisa em Jornalismo.

A premiação é concedida pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) e é  voltada a trabalhos que tenham sido elaborados durante o ano de 2008.

São três categorias: Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado. Uma quarta categoria (Sênior) é atribuída a pesquisadores com reconhecida trajetória no campo do Jornalismo.

O regulamento e a ficha de inscrição estão disponíveis no site da SBPJor, e os trabalhos devem ser enviados para o email premiosbpjor@yahoo.com.br Entre as novidades deste ano está a composição das comissões avaliadoras por três membros, e a possibilidade de envio de trabalhos de iniciação científica em co-autoria.

Os resultados têm anúncio previsto para 6 de outubro. Os vencedores de cada categoria e seus respectivos orientadores recebem seus diplomas de mérito durante o 7º Encontro Nacional de Pesquisadores de Jornalismo, em novembro em São Paulo.

Mais informações: http://www.sbpjor.org.br/sbpjor/?page_id=421

mudanças na super: não é bem assim

Sergio Gwercman, redator-chefe da Superinteressante, escreve contestando algumas das informações que dei aqui e aqui sobre as mudanças gráficas na revista. Por uma questão de justiça (e portanto, de princípio), reproduzo o que Gwercman disse:

“A mudança editorial da Super não é uma resposta às mudanças da Galileu. É simples perceber isso: Galileu mudou há 2 meses. Seria quase impossível fazer o trabalho que fizemos em 60 dias – buscar, testar e comprar novas fontes, refazer o grid, redefinir a estrutura da revista, repensar as seções, etc. etc. Eu tenho um arquivo de texto no meu computador que deu início ao processo todo – chama “Reforma Super” e definia o que eu queria que o novo projeto trouxesse. Esse arquivo foi criado no dia 5 de dezembro de 2008. A Super mudou porque sentíamos a necessidade de mudar para continuar sendo inovadores”.

“Não é verdade que nossos textos estão menores. A Super há tempos mantém uma estrutura com uma capa com 10 páginas uma ou duas matérias de 6 páginas uma ou duas de 4 páginas. Nesta edição a capa tem menos páginas, mas exatamente a mesma contagem de toques que uma matéria de 10 páginas: repare que ela tem menos entradas, nenhum box, por isso a diferença. O que aconteceu que talvez tenha causado a sua sensação foi que a nova tipologia nos permitiu escrever um pouquinho a mais do que a antiga no mesmo espaço. A única seção que realmente diminuiu de tamanho foi o SuperPapo. Em compensação criamos o Polêmica, uma página essencialmente de texto”.

Obrigado, Gwercman, pelas informações de bastidores.

dia dos pais: crônica 10

Giant steps (01/07/2005)

Moro a vinte passos do mar, condição que gera uma certa inveja de uns amigos meus. Tenho um filho lindo, saudável, esperto e feliz, o que também é motivo de inveja. O meu filho tem um ano, e ensaia os primeiros passos. Sozinho, digo. E isso não sei se causa inveja, já que significa algum desapego. Calma, eu explico.

Nas manhãs em que o sol invade a sala de casa (e elas são muitas), eu e meu filho deixamos o sofá e sentamos num quiosque bem em frente à praia. Quando há vento, também há surfistas. Não que a minha praia seja um pico excelente, mas quando o vento entra bem, traz algumas ondas, coisa de metrinho no jargão surfístico. Pois é, eu e o filhote ficamos de camarote assistindo as performances dos mais corajosos. A gente chega a ver bons momentos, é verdade, mas o que mais nos diverte são os tombaços que eles levam. Em terra firme e com preguiça de sobra, nós chegamos a torcer para que a onda seja bem traiçoeira e que passe uma boa rasteira no magrelinho que insiste em se manter em pé naquele pedaço estreito de fibra e parafina. Quando ele cai, a gente se olha e sorri.

Costumo sorri também quando meu filho se precipita no chão por algum motivo e me olha com aqueles olhinhos de porque. Na verdade, são olhos bem grandes e a pergunta que ele me atira na cara é: Como é que eu fui parar aqui? Você não viu não? Quem me derrubou? Pois, eu sorrio para dar confiança. Para mostrar que não foi nada. Como quem diz: Levanta daí, você mais tombos pra cair. E assim, quando ele me olha e encontra o sorriso, repete o gesto, me estica os bracinhos e eu o resgato do chão.

É muito provável que um dia meu filho venha a ser surfista. Adora o mar. Fica vidrado com o vai e vem da água e tem um grande senso de equilíbrio.

Já com onze meses, meu filhote jogava as pernas para frente, de forma coordenada, como se soubesse exatamente o que é andar. Observador que é, ele viu que andar é fácil. Ou pelo menos parece. Aí, esticou os bracinhos na direção dos pólos Norte e Sul e se lançou adiante, equilibrando-se na medida em que se apoiava no que via. Muitas vezes, julgou mal os objetos e se apoiou no que não era firme. Tombo! Outras tantas, calculou mal as distâncias e – no meio do caminho – suas perninhas não agüentaram o próprio peso e ele desabou no chão, exausto. Andar é aprender, ele percebeu. E mais: me ensinou isso.

Não chega a ser nenhuma maldade nossa torcer para a onda derrubar o surfista. Afinal, se ele realmente cair, vai se estatelar num meio flexível, receptivo. Tudo bem, tem a força d’água, o chacoalhar, o caldo e, talvez, a prancha sendo arremessada na cabeça. Claro, isso pode acontecer. Mas a gente não torce por isso não.

Meu filho, agora, ensaia os primeiros passos, sozinho. Não mais se apóia tanto nas coisas e em mim. Na verdade, quando estendo a mão para ele para que caminhemos juntos, ele se esquiva. Quer ir sozinho. É natural. Está conhecendo o mundo, e percebe que não precisa de mim para isso. Andar é aprender, ele me ensina isso. Todos os dias. Quando perde o equilíbrio, projeta-se para frente e para trás, buscando seu centro de gravidade. Às vezes, isso não basta, e ele dá uns passinhos pros lados, corrigindo a postura. Já sabe que é assim, que é preciso ter jogo de cintura, senso de equilíbrio. É assim quando a gente anda. É assim na vida.

Ensinar os filhos a andar é se desapegar. É compreender que eles andarão por si mesmos, que tomarão suas decisões e que despencarão muitas vezes. Dói na gente. Quando eles caem e quando a gente vê que eles já fazem os seus caminhos sozinhos…

dia dos pais: crônica 9

Na prática, a teoria é outra (24/05/2005)

Esses dias, recebi um email muito útil, de verdadeira prestação de serviços. O assunto já dizia a que vinha: Treinamento para ter filhos. E numa linguagem clara e com evidente intenção pedagógica, trazia quatro exercícios práticos para aqueles que planejam ter bebês em breve. Vou reproduzir alguns trechos, adicionando detalhes que aumentam o grau de dificuldade das tarefas.

Exercício 1. “Vestindo a roupinha: Compre um polvo vivo de bom tamanho e vá colocando, sem machucar a criatura, nesta ordem: fraldas, macaquinho, blusinha, calça, sapatinhos, casaquinho e touquinha. Não é permitido amarrar nenhum dos membros. Tempo de execução da tarefa: uma manhã inteira”.

Nesta primeira prova, tenha muito claro que o seu bebê é mais ágil, mais forte e mais insistente que o polvo do exercício. Tudo bem que o polvo é mais escorregadio e tem ventosas nos tentáculos. Entretanto, seu bebê pode também se tornar escorregadio se estiver na hora da troca de fraldas; seu bebê gira em torno do próprio eixo, podendo ocasionar quedas do trocador, da cama ou de qualquer móvel resistente que você o apóie. (O “resistente” da frase anterior é condição sine qua non para a troca. Se puder fixar algemas no trocador, ajuda). Seu bebê não tem ventosas, mas tem unhas que crescem rápido; seu bebê não tem oito tentáculos, mas na hora isso não faz diferença. E o pior: seu bebê sobrevive fora d’água. Diferente do polvo.

Exercício 2. “Comendo sopinha: Faça um buraquinho num melão, pendure o melão no teto com um barbante comprido e balance-o vigorosamente. Agora tente enfiar a colherinha com a sopa no buraquinho. Continue até ter enfiado pelo menos metade da sopa pelo buraquinho. Despeje a outra metade no seu colo. Não é permitido gritar. Limpe o melão, limpe o chão, limpe as paredes, limpe o teto, limpe os móveis a volta. Vá tomar um banho. Tempo para execução da tarefa: uma tarde inteira”.

O melão sugerido ajuda a treinar. Mas assim que executar a tarefa uma vez, volte a executá-la outras tantas. Afinal, seu bebê tem pelo menos três refeições diárias. E geralmente, assim que você termina de limpar tudo, está na hora da próxima papinha. E melões são mais pacientes.

Exercício 3. “Passeando com a criança: Vá para a pracinha mais próxima. Agache-se e pegue uma bituca de cigarro. Atire fora a bituca, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue um palito de picolé sujo. Atire fora o palito, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue um papel de bala. Atire fora o papel de bala, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue uma barata morta. Atire fora a barata morta, dizendo com firmeza: Não. Faça isso com todas as porcarias que encontrar no chão da pracinha. Tempo para execução: o dia inteiro”.

O exercício proposto ajuda a desenvolver a paciência, mas você deve lembrar o seguinte: seu bebê se move com mais rapidez que o papel de bala, é mais insistente que a bituca, mais resistente que o palito de picolé e mais nojentinho que a barata. Em condições normais de temperatura e pressão e fora do laboratório, você não vai se limitar em dizer “Não!” centenas de vezes. Na pracinha, você terá que impedir que seu bebê enforque uma inofensiva pombinha; terá que resgatá-lo da lata de lixo que ele decide conhecer por dentro; terá que desobstruir a garganta dele, lotada de pedrinhas, tampinhas de garrafa, bitucas de cigarro, papel de bala e outras coisas que ele encontrou no chão, porque alguém atirou longe…

Exercício 4. “Passando à noite com o bebê: Pegue um saco grande de arroz e passeie pela casa com ele no colo das 20 às 21 horas. Deite o saco de arroz. Às 22:00 pegue novamente o saco e passeie com ele até as 23:00. Deite o saco e vá se deitar. Levante às 1:30 e passeie com o saco até 2:00. Deite o saco e você. Levante às 2:15 e vá ver a sessão Corujão porque não consegue mais pegar no sono. Deite às 3:00. Levante às 3:30, pegue o saco de arroz e passeie com ele até as 4:15. Deitem-se os dois (cuidado para não usar o saco de travesseiro). Levante às 6:00 e pratique o exercício de alimentar o melão. Não é permitido chorar”.

Considere que, fora de simulações, o seu saco de arroz se movimenta sem parar, grita e chora sem parar também. Considere que o seu saco de arroz começa a noite pesando cinco quilos e terminará o seu expediente pesando cinqüenta. Eu disse seu expediente, pois você precisará ser rendido por alguém no meio do turno. Você terá que chamar reforços. Como eu disse, seu bebê não pára quieto: move as perninhas e os bracinhos, golpeando seu rosto, puxando seus cabelos, enfiando os dedinhos no seu nariz, boca e olhos. As perninhas atingem repetidas vezes o seu estômago e o baixo ventre. Alerta vermelho para os papais: se quiserem que o seu bebê tenha irmãozinhos, mantenha-os a uma altura segura para ambos (ele e você). E como eu disse também, seu saco de arroz grita e chora sem parar. Nos primeiros dias, os vizinhos sorrirão amarelos e mentirão, dizendo que nem ouviram o escarcéu da madrugada. Vão até tentar afagos no saco de arroz. Nas semanas seguintes, eles já comentarão nos corredores a gritaria da noite anterior. (É fácil perceber este estágio: quando você chega no prédio e os pega conversando baixo, eles logo sorriem amarelos de novo e interrompem o assunto bruscamente). No mês seguinte, as queixas chegam ao síndico. E no outro, você recebe uma advertência do condomínio com cópia do abaixo-assinado que fizeram, tentando te expulsar dali…

Se isso já aconteceu comigo? Os dois primeiros estágios, sim. Mas meus vizinhos não se deram ao trabalho de fazer o tal abaixo-assinado. Agi antes: vedei a boca do meu saco de arroz com uma silver tape!

dia dos pais: crônica 8

Ladrões de tempo (01/05/2005)

Como é que Shakespeare conseguiu construir sua obra mesmo tendo filhos? Como Marx fez o que fez, apesar das boquinhas miúdas que o perseguiam clamando por comida e atenção? E Einstein, como chegou aonde queria? Como driblaram suas crias e dedicaram-se tão intensamente às suas obras, obtendo tanto êxito?

Vejam: não me refiro a talento, mas a coisas mais prosaicas, como o tempo. Insisto: como é que esses caras conseguiram produzir mesmo tendo nas barras de suas calças aquelas criaturinhas fofinhas, graciosas, barulhentas e de energia inesgotável?

Eu respondo. Eles não tinham aquelas criaturinhas nas barras de suas calças. E assim puderam mergulhar no trabalho, oferecendo à humanidade contribuições de inegável importância.

Embora tivesse filhos pequenos, Shakespeare não hesitou em deixar a família na sua cidade natal para trabalhar com teatro em Londres. Longe de casa, viajava, escrevia, dirigia montagens. E pelo menos uma vez por ano (uau!) voltava a Stratford von Avon para rever os pimpolhos. Nessa distância, escreveu dezenas de poemas (ma-ra-vi-lho-sos!) e 34 peças que mudariam a história da literatura universal e o converteriam na segunda pessoa mais comentada em livros do planeta. (Só perdendo para Jesus Cristo, que, inclusive, nem filhos teve. Pelo menos é o que contam os biógrafos bíblicos).

Karl Marx também não parava em casa. A penca de filhos chorava e a mente do homem fervilhava de idéias, de palavras de força. Eram tempos difíceis e o ainda jovem Marx vendia o almoço para comprar a janta. Com a prole agarrada às suas extremidades, Marx construiu uma filosofia, um modo de compreender o homem no seu tempo. É verdade que os filhos vinham em segundo lugar (as idéias primeiro), mas a humanidade se beneficiou muito com esse pai desnaturado.

Einstein não era muito diferente. Tanto é que nunca chegou a conhecer a primeira filha, Lieserl. A noiva teve a criança na Hungria, enquanto Albert (com apenas 22 aninhos) trabalhava na Suíça. Dizem as más línguas que a menina teria sido criada por outra família, já que o funcionário do escritório de patentes de Berna não tinha onde cair morto.

***

Pois é. Filhos tomam o nosso tempo. Seres adoráveis, são meigos, alegres e fofinhos. Coiotes em pelegos. Sanguessugas disfarçadas em bonecos gordinhos; parasitinhas cruéis que roubam a nossa energia, o pouco tempo que temos e toda a intimidade que mantínhamos com a esposa.

O segredo de Marx, Shakespeare e Einsten está aí. Não só no talento, mas no quanto puderam se dedicar às suas idéias, livres de bebês, fedelhos e adolescentes. Kafka e Nietzsche sequer tiveram filhos. Sartre tampouco. Bob Marley e Pelé, pelo contrário, fizeram muitos, mas tiveram o cuidado de espalhá-los por aí. Com isso, puderam provocar pequenas (e indeléveis) revoluções na música e no futebol.

***

Conhecido meu me escreve com visível desespero. “Sou um desmazelado. Perdi o que me mandou. Minha filha me consome”. Escritor, intelectual e artista, ele não consegue mais trabalhar como antes. Todo o tempo que tinha foi sugado por aquele pacotinho de gente que todos insistem classificar de “gracinha”.

Respondo solidário ao conhecido. Afinal, tenho um bebê de dez meses. E como o meu amigo, também venho sentindo as imensas dificuldades para tomar as rédeas da própria vida. Já não leio o que quero, já não consigo um minuto de paz, de solidão. Escrever, então… vixi! Este texto já deveria ter sido mandado há pelo menos dois meses. Já o escrevi mentalmente há um tempão, mas e a chance de sentar e martelá-lo no teclado? Não tinha jeito…

Meu colega retornou momentaneamente aliviado. Não, aliviado não. Conformado… resignado seria a palavra mais acertada. Me chamou inclusive de “meu irmão na paternidade”. Pois é, o cara – que nem me conhece direito – me chamou de mano. Fiquei feliz, lisonjeado, até porque admiro o trabalho dele. Mas dois minutos depois, percebi que era uma ilusão: ele havia me relevado que fazemos parte de uma mesma fraternidade, uma irmandade macabra: a dos pais recentes. E pior: a dos pais que se preocupam com seus filhos e viram reféns dos pequenos tiranos…

***

No final de março, comprei um livro sobre a ditadura militar e os seus efeitos sobre os jornalistas. Livro delicioso, feito com critério e com uma pesquisa muito rigorosa. Sabe quantas páginas pude ler até agora? 39. É. Justo eu que comia livros, consumia sem pudor, atropelando tudo… Não tem dado… fazer o quê? Para tentar continuar a leitura, venho carregando o grosso volume em minha valise para todo lugar que eu vá. A esperança é contar com uma fila de banco, com o trânsito engarrafado, com qualquer oportunidade que me obrigue a ficar longe do meu pequeno capataz e assim possa me deliciar com algumas páginas…

Outro dia me peguei como um marginal. Fi-lo dormir e, na ponta dos pés, coloquei a criaturinha em sua jaula, quer dizer, bercinho. Acompanhei seu sono por alguns segundos, certificando-me de que ele estava apagado mesmo, fora de combate. Ótimo, sorri. Dei três passos em ré, sentei-me numa cadeira de praia e apanhei o livro. Abri na página e mergulhei entre duas frases. Dei uma, duas, três braçadas vigorosas e alcancei um novo parágrafo. Fui adiante, mas – de repente – ouvi algo estranho, um suspiro, um resmungo, sei lá. Voei como um raio para fora do livro e olhei o bercinho: meu senhor estava em pé, sustentando-se nas grades e me lançando um olhar reprovador. Numa fração de segundos, não tive dúvidas. Fechei o livro e o escondi atrás de mim. Me senti um criminoso…

***

Mas não é só isso. Descobri outros sintomas que vejo hoje como graves. Venho comendo em pé. Acordo à noite com qualquer barulhinho e saio às cegas pelo corredor em busca de um resmungo ou princípio de choro. Quando em pé, parado e sem nada nos braços, ainda oscilo de um lado a outro feito um pêndulo. Baixei naturalmente o volume da minha voz. Nunca grito. E o pior, o mais grave: tenho feito a barba duas vezes por semana…

A situação não é fácil, mas meus amigos (?) que já têm filhos tentam me acalmar, dizendo que é irreversível.

Sem tempo pra nada; com as idéias e os projetos escorrendo pela cabeça sem as suas devidas realizações; eu continuo levando a vida. A dele e a minha. As queixas são verdadeiras, mas elas mais confundem o meu juízo do que servem de válvula de escape. Se reclamo, ao mesmo tempo me penitencio por isso. Afinal, aquela criança é a melhor coisa que já fiz; o projeto mais acertado de que participei; a coisa mais preciosa que tenho ao meu redor.

O problema não é o tempo, nem a tirania daquele déspota mirim. O problema não está em mim ou no meu egoísmo inalienável. O problema é que os pais de hoje são diferentes dos de antigamente. Nos tempos de Marx, de Shakespeare e de Einstein, era possível deixar as crianças com as mães, sem qualquer remorso ou cobrança emocional. Hoje, um novo lugar foi desenhado para o pai. Uma nova fronteira que nos coloca uma série adicional de compromissos, de contrapartidas familiares, de posicionamentos diante da criação e da educação desses filhotes.

Descobri, então, que a proteção que eu teria que dar ao meu filho não era a mesma que o avô dele imaginou para mim. E que se os pais hoje tivessem seios, guardariam seus filhos bem próximo ao peito. Se fosse assim, essas criaturinhas cândidas não seriam apenas ladrões de tempo: nos tomariam o leite também.

dia dos pais: crônica 7

Vai saber o que ele quis dizer (05/03/2005)

Tem coisa mais patética que o auto-engano? Pois é, pior não é se iludir, mas perceber que você mesmo trabalhou para ocultar aquilo de si. E quando a gente vê isso, dá uma raiva, misturada com arrependimento e a sensação: Putz! Como fui trouxa!

Bem, tudo isso pra dizer que passei por essa situação agora há pouco. Há algumas semanas, o sabidão aqui chegou ao trabalho todo feliz, quase saltitante. Meu filhote de oito meses já fala, já balbucia alguns verbetes. Não os mais complexos, é verdade, mas os mais necessários: Mã-mã e Bã-bá. É claro que até as frestas das paredes souberam da novidade por lá. Orgulhoso, fagueiro, eu desfilava pelos corredores acenando majestático a todos. Até mesmo aos desconhecidos, que se entreolhavam, perguntando: Quem é esse cara?

Um ou outro colega sacana me dizia: Mas você tem certeza que seu garoto está falando essas coisas? Na altura de meus oito meses de experiência, eu fulminava meu interlocutor com um olhar de desprezo, respirava dois segundos (coitado!), e tascava: Mas é claro! Eu conheço o meu filho! Você precisa ver!

Outro dia, quando me deixava inundar por um mar de baba de meu filho, passei a observar os seus hábitos. Eu o levantava para o alto em movimentos rápidos, coisa que – pelo jeito – ele adorou. Eu erguia os braços (ele junto) e baixava. O moleque se matava de rir: não sei se é um sádico ou masoquista. Meus braços quase despregando do corpo de cansaço e ele rindo. Ele quase se estatelando no chão da sala, e ainda rindo. E claro: vocalizava a todo o momento, entre uma risada e outra, um “Bã-bá”. Eu sorria, orgulhoso. Afinal, o cara – com aquele pedacinho de vida que tinha – já me reconhecia, me chamava de pai em seu dialeto particular.

De repente, sua mãe chega, e ele escancara novo sorriso, estende os braços em sua direção: Mã-mã! Evidentemente, solicitava seu afeto e colo. Passei a olhá-los de longe, sem ser visto. A TV ligada e eles conversando, digamos. O molequinho balbuciando coisinhas e a mãe, sorrindo e respondendo palavras que, essas, eu entendia. De repente, aparece na TV o Ratinho, e o garoto vira seu rosto para o apresentador, arregala os olhos e diz: Bã-bá! Me indigno. Em segundos, a imagem é substituída por outra: um pássaro pousa num galho de árvore, e meu filho: Bã-bá! Me confundo. Dois minutos depois, a mãe oferece uma banana ao pequenino, e ele, Bã-bá! Já não entendo mais nada. Disposto a tirar isso a limpo, sigo – passos firmes – até eles e me coloco à frente daqueles olhinhos faiscantes. Ele me vê, sorri no canto da boca, e diz: uama-mame-babobo, seguido de mmmmiammumu. Já sem poder me conter, explodo: Quer dizer que eu não sou mais o Bã-bá? Ele franze o cenho, passa a mão sobre o meu braço e explica: ê-amu-ma-ma-ba.

Daquele dia em diante, eu presto atenção no que ele diz, mas ele não diz nada com nada. “Bã-bá” pode ser um monte de coisas, inclusive eu. “Bã-bá” é vocalizado de forma prazerosa. Eu vejo isso, porque vem acompanhado de sorrisos e risinhos baixos. Mas “Bã-bá” não é apenas uma maneira de se referir a mim. E justo eu que convenci meio mundo disso…

dia dos pais: crônica 6

Você sabe quando… (30/01/2005)

Há coisas que a gente pega no ar. Não precisa dizer muito. É uma expressão no rosto, uma sombra de atitude, meia palavra… e pronto! A gente saca, e aí não dá para disfarçar, desmentir, falsear. Nessas ocasiões – e elas não são poucas -, o ser humano é previsível, transparente. E mesmo aqueles que se acham acima do bem e do mal, acabam repetindo o comportamento padrão.

Por exemplo: a gente sabe quando o cara é um “pai fresco”…

… quando ele chega no trabalho com a parte do ombro da camisa encharcada da babá do bebê;

… quando carrega na agenda umas 600 fotos da sua cria e insiste em te mostrar todas elas, comentando em detalhes (agora, a baba que escorre é a dele…);

… quando, mesmo sem nada nos braços, ele fica em pé oscilando de um lado para o outro, como um imenso pêndulo. Suave, pra lá e pra cá;

… quando ele só tem um assunto: a diarréia do filho ou o balbucio incompreensível que ele traduz como palavra;

… quando estoura o cartão de crédito para montar o enxoval e o quartinho do bebê.

Mais adiante, a gente sabe logo de cara quando o sujeito tem filhos pequenos. A gente percebe…

… quando o cidadão carrega aqueles desenhos dos filhos na mesma valise com os contratos e os documentos da firma;

… quando ele chega atrasado a uma importante reunião com a desculpa de que levou o garoto na escola;

… quando o cara falta ao serviço para ir à reunião de pais e mestres. E pior: interrompe a discussão para mostrar o boletim colorido do filhote;

… quando ele entra no cheque especial para comprar toda a lista de material escolar da pestinha.

Tem mais. A gente também saca quando o cara é pai de adolescente. É…

… quando corta o cabelo de forma engraçada, ignorando a própria idade e se achando garotão. Isso quando não põe piercing e faz tatuagem;

… quando o som de seu carro só tem CD estranho. Seja as bandas malucas da filha ou mesmo as que ele cultuava quando era jovem, e resolveu ouvir de novo;

… quando hipoteca a casa e vende o carro para mandar os jovenzinhos para estudar inglês nos Estados Unidos ou na Austrália, destino da moda.

Ainda não acabou. A gente vê de longe quando o cara tem filho estudando na universidade, em outra cidade, e dependendo de mesada. É um tempo em que…

… a conta do telefone alcança um quilômetro de extensão;

… e o indivíduo vende as jóias de estimação da família e apressa o advogado no inventário de bens da família.

Alguns anos depois, quando os filhos se formam – sem cartão e cheque, pagando aluguel e a pé -, a gente vê o que sobrou do cara…

… dobrou as horas extras na firma para pagar as dívidas;

… quer matar o advogado que ainda o enrola;

… continua trocando os nomes dos filhos mais velhos pelos mais novos;

… e morre de saudades deles, que nunca telefonam.

(Quando eles ligam pra pedir uma grana emprestada, ligam a cobrar)

dia dos pais: crônica 5

Das fragilidades (05/10/2004)

No começo de tudo, ele não era nada. Ou quase nada. Um pontinho preto num mar de sei lá o quê. Era frágil, sem forma, sem nada definido. Não era sequer um acidente ou uma imprudência nossa. Mas já fazia diferença. Depois de algum tempo, voltas no relógio, ela passou a ser um amontoado de células loucas por mitoses e meioses, um corpo empelotado, amorfo, disforme. Era frágil, não por ser quebradiço, mas por ser delicadamente pequeno: leve a ponto de flutuar no útero, ínfimo a ponto de perdermos sua nitidez na tela do ultra-som.

Hélices do tempo, os ponteiros do relógio giraram fazendo aquela coisinha crescer, tomar forma. De ser empelotado passou a girino. De girino tornou-se um sapinho não-verde. O batráquio deu lugar a um lêmure sem pelos, com olhos nos cantos da cabeça. Bicho estranho, mas fascinante, curioso. Feio, é preciso dizer, sem meias-palavras. Mas que arrancava sorrisos toda vez que se avistava naquele país imaginário que é um útero fértil.

Volto a dizer. Se o tirássemos naquele segundo, não duraria mais nenhum segundo. Frágil demais, dependente total de líquidos protéicos, de calor, de sangue e proteção. Tal como hoje, passados alguns meses – as hélices não param nunca? -, em que continua fraquinho, inofensivo, diminuto.

Afinal, ele não é nada: tem um nome que escolheram para ele, não se alimenta sozinho, nem se limpa com as próprias mãos. Não duraria nesta selva de pedra aí fora. Ele nem pesa mais que um saco de arroz, não fica totalmente em pé, nem articula “obrigado” e “até logo”. Não se penteia porque o cabelo é ralo demais. Não amarra os sapatos, pois a articulação das mãos ainda não lhe permite. Mas sapatos para que, se ele nem caminha por aí?

É frágil, inofensivo, incapaz, delicado. Com um sorriso, me derrete. Com um olhar maroto, me faz encolher os ombros e estremecer. Com a pressão daqueles dedinhos gordinhos, esmaga a ponta do mau humor que trago comigo e dilui o meu veneno. Com um balbuciar de palavras em línguas incompreensíveis, ele me mostra as verdades e as essências do que é viver. Mas ele é pequeno, fraquinho, mole demais. Eu, não. Sou rijo, enfrento problemas, sou auto-suficiente. Dirijo situações, influencio pessoas, aconselho amigos. Conduzo, batalho, venço. Quando ele ameaça chorar, entorta minhas sobrancelhas para cima, destrava meu queixo que cai. Aí, dobro os joelhos. Olho em minha volta e vejo: sou pequeno, tão pequeno que caibo num cantinho do seu coração. Aquela ameixinha que pulsa leve, frágil.

dia dos pais: crônica 4

Os botões dos bebês (01/09/2004)

Eu acho que bebês deveriam vir ao mundo com alguns opcionais. É, como esses modelos de carro que a gente vê por aí: ar condicionado, vidros elétricos, teto solar, airbag para o carona… Pois, para mim, os bebês poderiam vir equipados com três botões: um que ligasse e desligasse, outro com função Mudo e um terceiro que acionasse o mecanismo autolimpante.

Garanto que se eles viessem com esses opcionais de fábrica, muita gente iria se entusiasmar e produzir mais e mais bebês. Claro que isso acarreta num problema de superpopulação, mas não quero entrar em questões ambientais tão profundas… Na verdade, como qualquer cidadão na média, fico pensando nas facilidades que esses novos bebês trariam à rotina doméstica. Já pensou como seria? Então, imagine: você chega em casa exausto do trabalho, mas louco de saudade de seu filhote. Você beija a esposa, burocraticamente conta como foi o seu dia, assiste o telejornal, dribla a novela e vai brincar com o bebezinho. Brinca, brinca, brinca e cai morto de cansaço. Ele, não. Agora, está mais aceso do que nunca. Quer atenção, quer carinho, quer que você continue com os movimentos ritmados e frenéticos que você mesmo inventou. Seus músculos não suportam mais, mas o bebê quer, faz beicinho, treme o queixo, agita os bracinhos, pende a cabeça. E chora, berrando a plenos pulmões, abalando as estruturas do edifício onde você mora. Se o seu bebê for equipamento com a tecla LIGA, basta que você aperte a bendita e o pequeno tirano se desligará em meio segundo, dobrando-se sobre si mesmo como um boneco. Aí, é só guardar no berço e religar na manhã seguinte.

Mas vamos adiante nesse exercício de imaginação… Você acalentou seu rebento por horas e ele agora dorme um soninho tranqüilo. Você o deposita com o maior dos cuidados no berço, para que ele durma mais confortável e para que você possa assistir à final do campeonato sem estresse. Você o coloca como se fosse uma pluma, vai nas pontas dos pés até a sala e liga a tv com o volume no primeiro tracinho. Meio segundo depois, ele acorda aos berros, chorando a plenos pulmões, desestabilizando qualquer monge budista e aniquilando qualquer pretensão de ver pelo menos o segundo tempo da partida. Se você for um cara sortudo, e seu bebê tiver uma tecla MUDO, basta acioná-la. Para desencargos de consciência, você até pode trazê-lo para a sala e sentá-lo ao seu lado no sofá, diante das cervejas e da telinha. Ele se esgoelará, mas tudo em silêncio. Mexerá os bracinhos, puxará os próprios cabelinhos, ficará roxo, mas tudo no mais perfeito mutismo.

Terceira situação hipotética: você já acordou mais cedo, tomou seu banho, colocou a melhor roupa, já que é dia de reunião. Preparou o café para a patroa, está feliz. Só falta mesmo trocar o bebê, que está um pouco agitadinho e parece estar recheado com algo. Você conversa com a criança, mas ela não te dá ouvidos e solta um jato quente, amarelo e que mancha na sua camisa. Você pensa em soltar um palavrão, mas não é o momento de introduzir seu bebê no reino da má-educação. Você se contente com um gemido, um muxoxo apenas. Bem, você terá que se trocar novamente, irá se atrasar e seu humor já não é mais o mesmo. Tudo poderia ser evitado se o seu bebê fosse equipado com um botão autolimpante. Isso jamais estragaria uma manhã sua ou do alegre casal que há pouco ganhou um bebezinho…

Mas, convenhamos, a realidade é outra e os bebês não vêm com botões. Seria divertido se isso acontecesse, mas os modelos chegam às maternidades na modalidade básica, sem acessórios. Eu até convivo muito bem sem essa parafernália toda. Mas bem que trocaria os três botões por uma única tecla: a SAP. Com ela, eu não precisaria das demais. Afinal, meu filho balbuciaria que está com fome, que precisa ser trocado, que está com dorzinha de barriga ou mesmo que quer mais atenção. Com a tecla SAP, ele olharia para mim e, entre os esgarçar de um sorriso e outro, deixaria escapar qualquer eu-te-amo-papai…

dia dos pais: crônica 3

O olhar, o braço e as mãos do pai (23/03/2004)

Faz tempo, mas eu me lembro da sensação. Duas mãos silenciosas, enormes e fortes, me seguravam. Tinham o apoio dos braços, e os passos eram bem cuidadosos, quase flutuantes. Quem me levava quase nem respirava para que eu não acordasse. Muito devagar, me colocavam na cama. Eu deixava meu corpinho serenar, despejando-me no colchão. Mas sentia que alguém me observava por um segundo ou mais: era meu pai. Que desmanchava o sorriso de satisfação assim que percebia que eu acordara. Mas eu, de novo, fechava os olhinhos, e ouvia um suspiro de alívio dele.

Como eu disse, isso aconteceu há muito tempo, quando eu ainda era pequenino e dormia na sala, tendo que ser transportado para a cama. É curioso como a memória da gente funciona. Isso estava guardado lá nos cafundós das minhas lembranças, soterrado abaixo de muita tranqueira e de alguns outros sentimentos.

***

Já tentou cortar um bife com uma mão só? E desrosquear a tampinha do refrigerante só podendo contar com cinco dedos? Não é fácil, mas é possível. Aprendi e executei essas proezas dia desses quando estava com meu filho recém-nascido nos braços. Na verdade, Vinicius estava depositado sobre o braço esquerdo e eu estava com uma sede africana. Caminhei lento e calmo até a cozinha e abri a geladeira. De costas. Não ia expor o filhote àquele ventinho gelado que escapa da porta entreaberta. Numa manobra rápida, escorreguei o braço pelas prateleiras, tateando grades e tomates e cheguei ao pescoço da garrafa de Coca. Puxei e, com um golpe de bunda, fechei a porta da geladeira. Protegidos de qualquer friagem, andamos até a bancada, onde coloquei a garrafa em pé. Foi aí que me dei conta de como abriria a bendita com apenas uma mão. Vinicius respirava quietinho. Estava no país dos sonhos. Não tinha como rearranjá-lo. Prendi a respiração e desci a palma da mão pela rosca da garrafa: apertei como uma morsa – com dois dedos – a parte inferior e dei um tranquinho no sentido antihorário na parte de cima. Tchiiiiiiiiii! Legal, abri! Mas meio segundo depois, pensei ter sido alto demais. Ele vai acordar com esse barulhão, seu burro! Que nada! Vinicius até levantou meia pálpebra para ver se estava tudo bem comigo. Em seguida, suspirou senhor-de-si e voltou ao sono.

***

Resgatei a sensação do calor e da força das mãos do meu pai lá do fundão da memória. Para mim, eram mãos imensas, colossais, capazes de sustentar o mundo. Quando cresci, vi que o mundo encolhera um pouco. E meu pai deixou de me carregar do sofá para a cama. Bastava chacoalhar que eu despertava, ainda meio zonzo. Eu caminhava trôpego até o quarto, sob o olhar aliviado dele. Perdi meu pai há catorze anos, mas só hoje entendo e repito aquele olhar…

dia dos pais: crônica 2

Os insones são felizes (12/07/2004)

Faz duas semanas que me tornei pai. Claro, isso não é lá grande novidade já que quase toda a fauna de homens no mundo passa por isso em algum momento da sua vida. Mas é a minha primeira vez, e ainda não percebi a coisa toda… Vasculhando minha agenda essa tarde, em busca de qualquer outra coisa, esbarrei num bilhetinho que escrevi para mim mesmo na capa do caderno. Nem me lembrava mais que havia feito aquilo, mas agora me recordo nitidamente que rascunhei algumas frases no meio da madrugada: minha mulher descansava do parto, o bebê dormia sem culpa nem nada, e eu ainda me refazia de tudo aquilo. É claro que acompanhei a cirurgia, que tirei fotos, que anunciei o nascimento pelo celular, que monitorei cada respiração daquele menino naquela noite. Medo bobo. Medo de pai novo…

No silêncio do quarto, a clínica praticamente vazia, fiquei ali, só assistindo os dois dormirem. Quis gritar, quis dançar, mas me detive: seria ridículo; incompreensível para qualquer enfermeira que ali entrasse de repente. Cocei a mão e apanhei a agenda. Com uma letra miúda, fui deixando escoar uma ou outra palavra, como num conta-gotas. Não que eu pesasse as palavras, mas porque não queria acordá-los. Fui imprensando palavra com palavra, sem pressa, com cuidado na pontuação, fazendo a madrugada só minha.

***

Tornei-me pai há poucas horas e ainda estou tomado por uma imensa sensação de paz. Não chorei no parto; não fiquei nervoso; só fui sorriso. Não esperava reagir assim, mas acho mesmo que já estava esperando tudo isso. Ser pai me preencheu com tanta força, serenidade e delicadeza que quase nem me reconheço.

A força, eu roubo dos dedinhos dele, que apertam minha mão; a serenidade, eu vejo no soninho leve e contagiante dele; a delicadeza mora nos movimentos suaves dos lábios, quando balbucia historinhas incompreensíveis.

Como será daqui pra frente? Como o mundo vai tratar esse novo passageiro da vida? Eu não sei. Também não quero me preocupar agora com isso. Deixa o mundo girar que eu quero mesmo é velar por esse soninho gostoso.

***

Se fosse essa noite, escreveria outra mensagem. Talvez mais serena, mais amena. Já mudei bastante desde aquela madrugada. Não é responsabilidade ou o peso da idade. Não é medo, nem coragem. É uma sensação diferente, que me preenche, que me acalma, que me renova. É uma paz imensa, espalhada, inebriante. Só. Nessas duas semanas, a vida mudou bastante. Comi menos, sorri mais. Dormi menos do que o normal, é bem verdade. Mas não foi apenas para amainar algum chorinho sem-causa. Perdi o sono para sonhar com ele crescido, correndo pela praia, chutando a espuma da onda que lambe a areia. Não perdi o sono. Ganhei sonhando acordado.

dia dos pais: crônica 1

Sou pai há apenas cinco anos.
No começo, foi uma novidade incrível. Continua sendo.

E como estamos às vésperas do Dia dos Pais, desengaveto aqui alguns textos que cometi há quatro ou cinco anos. Originalmente, eles foram escritos para o site do meu amigo Marcio ABC, grande jornalista e pai da Maria Clara. Nem sei se ele mantém esses textos por lá, mas em todo o caso, deposito aqui também.

Se você é pai, talvez se identifique. Se não é, talvez se motive a ser…

Crônica 1
Mas quem é o pai?
(12/03/2004)

Outro dia, acabei descobrindo que a maternidade é uma instituição e que a paternidade é uma situação. Quer dizer, ser mãe é uma condição já embutida no DNA das mulheres e que se manifesta em algum momento de suas vidas, mesmo que elas não venham a parir. As mães têm sexto sentido; sempre têm razão; têm paciência e pressentem perigos para a prole; estão no centro da família e, quando é o dia delas, recebem presentes. Sempre. Por outro lado, ser pai não é lá grande coisa, e em muitos casos, isso acontece até mesmo sem querer. No dia dos pais, eles recebem uma lembrancinha; eles não detêm nenhum superpoder como a clarividência materna ou o coração em forma de latifúndio. Pais quase não são mais necessários. Ainda mais nos dias de hoje, quando temos bancos de sêmen, técnicas avançadíssimas de inseminação artificial e mulheres mais avançadas ainda. Não vai demorar muito para que os pais sejam tratados como meros doadores de líquidos corporais. (Na verdade, já tem pai que é tratado assim… ou você não se lembra do Luciano Szafir?).

Por isso, a maternidade é uma instituição respeitada e cultivada, um estado desejado, uma condição invejada. A paternidade perde o pouco espaço que teve até então, sendo relegada a um detalhe aqui, outro ali.

Prova disso é o interesse que atrai. Quase nenhum. Um exemplo é o mercado editorial. Minha mulher foi a uma loja atrás de um livro que tratasse de cuidados e conselhos a futuros pais. Andou, andou, andou e não achou nada. Encontrou dezenas de títulos sobre a saúde das gestantes, os cuidados com a gravidez, técnicas de parto, orientações e exercícios físicos para facilitar a dilatação na hora H, guias de nomes, dicionários e enciclopédias neonatais, livrinhos de banho para os recém-chegados, e uma infinidade de manuais de educação infantil. A esmagadora maioria dessas obras era voltada às futuras mamães, ignorando solenemente a presença dos idiotas ao lado, que tentam disfarçar o constrangimento com um sorriso amarelo. Para não dizer que não existam títulos no mercado voltados para os futuros pais, vou citar dois: um foi escrito pelo Gugu Liberato e outro pelo Hélio de La Peña, um dos Cassetas. Diante de tantas opções e graus de especialidade, só mesmo apelando. A pouca oferta é reveladora: ninguém está nem aí para os pais; afinal, eles são meros coadjuvantes, alguém aí pode deixar escapar. Entretanto, depois de procurar muito, até encontramos algo, um livro chamado “O manual do grávido”, que é bem humorado, tem inteligência e é bem útil. Mas é pouco, né!?

O episódio me fez pensar nisso que a gente se transforma quando o exame dá positivo. E, cada vez mais, me convenço de que a paternidade é uma situação, e tudo depende de um bom convencimento. Deixa explicar. Há gerações, as mulheres são condicionadas a esperar que um dia irão se tornar mães. Aí, elas crescem brincando com bonecas, adestram-se na lida com esses afazeres e tomam para si que a missão feminina na Terra é mesmo gerar e parir. A mulher nasce para ser mãe. O homem, não. Ele não é preparado física, técnica e intelectualmente para ser pai. Muito menos emocionalmente. Então, o homem não nasce pai, mas vai acabar se convencendo disso. Alguém – geralmente, a mulher; às vezes, a amante – vai colocar na cabeça dele que é hora de ser pai.

Digo isso com convicção. Tenho amigos que se comportam da mesma forma, e outros que já reproduziram o procedimento que parece ser mesmo padrão. Não é que a gente não queira ser pai, a gente só não estava preparado para isso desde o começo…

De qualquer forma, isso me leva a pensar no que é mesmo ser pai hoje em dia. Se a paternidade é uma situação (e não uma instituição como a maternidade), se, para ser pai, o sujeito tem de se convencer disso, se não fomos educados para isso e se o mundo já é muito diferente do construído pelos nossos pais e avós, é necessário repensar o papel do pai na sociedade atual.

As famílias não são apenas aquele grupinho que tinha papai, mamãe e filhinhos numa mesa de café da manhã passando margarina no pão. Há diversos modelos de células familiares: num deles, quem é o chefe da casa é a mãe; em outro, o casal é homossexual; num terceiro, há filhos de pais separados e casados novamente, gerando aquela confusão de meio-irmão; entre tantos outros exemplos. A família mudou, e o pai já não é aquele cara que sabia tudo e tinha pleno controle das situações. As crianças não temem mais tanto os pais e geram ordens e comandos próprios, conquistando relativa autonomia. Os casais mudaram também. As mulheres são mais emancipadas, independentes e fortes; são mais racionais e ocupam os espaços mais distintos no mundo. Os homens revelam-se mais frágeis, emocionalmente instáveis, avessos a compromissos, desorganizados compulsivos, verdadeiras baratas-tontas bípedes. Com tudo isso, o pai precisa se ajustar a um novo cenário familiar. Não basta apenas que seja o provedor, o protetor, o modelo masculino da força e da coragem. É preciso reconhecer-se em outras posições, em terrenos ainda desconhecidos.

Diante disso, é claro que eu não tenho todas as respostas. Eu só descobri que serei pai faz seis meses. Esta é a minha primeira vez, e é assustador. Mas é fascinante. É pavoroso. Mas empolgante. Calamitoso. Emocionante. Aparvalhante. Maravilhoso…

Sabe, algumas vezes por dia. eu me pego olhando para aquela barriguinha e tento enxergar quem vem vindo ali. Eu abro bem os olhos e passo a ponta dos dedos sobre o ventre dela e sussurro algo (mas não faço com aquelas vozes bobas, juro!). Dá um arrepio de saber que alguém lá dentro me ouviu. Principalmente, se aquele parasitinha dá algum sinal de vida, do tipo chute, cotovelada ou cambalhota. Quando isso acontece, eu não consigo segurar e escancaro um sorriso no rosto. Como se eu tivesse esperando por aquilo desde que nasci…

meia dúzia de links acadêmicos sobre jornalismo

Rápido e rasteiro:

vencedores convidam para o prêmio adelmo genro filho 2009

Faltam quatro dias para o final do prazo de inscrições para o Prêmio Adelmo Genro Filho de Pesquisa em Jornalismo. A premiação da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) e está na quarta edição. Podem participar trabalhos apresentados ou defendidos em 2008, nas categorias Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado.

Considerado o prêmio de maior prestígio nacional na área da pesquisa, o PAGF já destacou trabalhos importantes em diversos segmentos de estudo em Jornalismo. O vencedor da categoria Doutorado de 2007, José Afonso da Silva Júnior, destaca o impacto da iniciativa: “O prêmio não é apenas um reconhecimento à qualidade e relevância das pesquisas em jornalismo. Mais que isso, o PAGF se constitui num importante argumento em prol da consolidação do ensino e investigação do jornalismo como área de conhecimento e de apontar para práticas de jornalismo aperfeiçoadas sob o ponto de vista social, profissional é ético no contexto contemporâneo”. Para Zé Afonso, prêmio “demonstra ainda a crescente maturidade da pesquisa realizadas no Brasil que tem o jornalismo como problema. É como um sismógrafo: capaz de registrar a construção de conhecimento em torno do jornalismo e avançar a discussão e aprofundamento dos temas”.

Marcelo Träsel recebeu o PAGF no ano passado. “Foi um importantíssimo reconhecimento pelo trabalho que desenvolvi durante o mestrado. A pesquisa acadêmica é cercada de dúvidas sobre a relevância das questões estudadas e a pertinência das teorias e métodos que usamos. Receber um prêmio de seus colegas é um sinal de que você está no caminho certo. No meu caso, foi um dos principais incentivos para seguir adiante na carreira acadêmica e entrar no doutorado”.

As inscrições para o PAGF 2009 vão até 10 de agosto!

O regulamento está aqui: http://www.sbpjor.org.br/sbpjor/?page_id=421

Veja os vencedores dos anos anteriores:

2006

Iniciação Científica
1º lugar: O cidadão-comum nas páginas do Diário de Santa Maria: uma questão de valores-notícia
Carolina Adolfo De Carvalho (Universidade Federal de Santa Maria)
Orientadora: Dra. Márcia Franz Amaral

Mestrado
1º lugar: O Webjornalismo Audiovisual: uma análise de notícias no UOL News e na TV UERJ Online
Leila Nogueira (Universidade Federal da Bahia)
Orientador: Dr. Elias Machado

Doutorado
1º lugar: Ilustrações: fronteiras entre o Jornalismo e a Arte
Gilmar Adolfo Hermes (Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos)
Orientador: Dr. Ronaldo Henn

2007

Iniciação Científica
1º lugar: O uso da infografia na revista Saúde!
Elaine Aparecida Manini (UFSC)
Orientadora: Tattiana Teixeira

*Menção Honrosa na categoria Iniciação Científica
Título do Trabalho: Nuances de Análise Histórica do Jornalismo: homens, mulheres e a cidade nas páginas do Diário dos Campos (1910-1923)
Felipe Simão Pontes (UEPG)
Orientador: Sérgio Luiz Gadini

Mestrado
1º lugar: A qualidade da informação jornalística: uma análise da cobertura da grande imprensa sobre os transgênicos em 2004
Carina Andrade Benedeti (UnB)
Orientador: Luiz Gonzaga Figueiredo Motta

Doutorado
1º lugar: Uma trajetória em redes: modelos e características operacionais das agências de notícias: modelos e características operacionais das agências de notícias, das origens às redes digitais: com estudo de caso de três agências de notícias
José Afonso da Silva Júnior (Universidade Federal da Bahia)
Orientador: Marcos Silva Palácios

Sênior
Profa. Dra. Christa Berger – Universidade do Vale do Rio dos Sinos

2008

Iniciação Científica
1º lugar: Gabriela Jardim Rocha (PUC-Minas), “Mediações sociais no jornalismo colaborativo”
Orientadora: Geane Alzamora

Menção honrosa: Mariana de Almeida Costa (UFF), “Jornalistas e marginalidade social”
Orientadora: Sylvia Moretzsohn

Mestrado

1º lugar: Marcelo Ruschel Träsel (UFRGS), “A pluralização no webjornalismo participativo”
Orientador: Alex Primo

Menção honrosa: Ana Paula Ferrari Lemos Barros (UnB), “Saúde, sociedade e imprensa”
Orientadora: Dione Moura

Doutorado
1º lugar: Suzana Barbosa (UFBA), “Jornalismo digital em base de dados”
Orientador: Marcos Palacios

Sênior
Marcos Palacios (UFBA)

sessão da tarde na tv senado…

Frank Maia, sempre ele, dá o tom da coisa…

frankmascara

educação em diferentes contextos

Acabo de colocar na rede o Volume 9 nº 2 da Contrapontos, o periódico científico do Mestrado em Educação da Univali (SC, Brasil). A revista é classificada como publicação B2 no Qualis/Capes, é quadrimestral e teve como eixo temático nesta edição “A educação em diferentes”.

Veja o sumário:

Vol. 9, No 2 (2009)
Educação em Diferentes Contextos
Maio – Agosto de 2009
ISSN: 1984-7114 (novo! Versão eletrônica)

Editorial: Educação em diferentes contextos

A formação de professores e a teoria sociológica de Pierre Bourdieu: interface possível para pesquisas em Educação – Cristina Carta Cardoso de Medeiros

Tensão entre a vulgarização e a erudição – Altair Alberto Fávero, Carme Regina Schons

As relações existentes entre a educação e a complexidade na sociedade globalizada: impactos para a formação do leitor crítico – Renata Araújo Jatobá de Oliveira, Janssen Felipe da Silva

Um estudo sobre o trabalho pedagógico de professores das EJA – Emmanuel Ribeiro Cunha

A Educação Bioética no Ensino Fundamental: um estudo a partir da LDB e dos PCNs – Maria Isabel Alves Dumaresq, Margareth Rose Priel, Margaréte May Berkenbrock Rosito

A experimentação animal na Universidade Federal de Goiás: elementos para uma abordagem crítica – Thales A Tréz, Priscila Camargo Reis

Gênero e Educação: delimitação de espaços e construção de estereótipos – Carolina Riente Andrade, Amon Narciso Barros

Reflexões Acadêmicas
A Sustentabilidade No Ensino Superior Brasileiro: alguns elementos a partir da prática de educação ambiental na Universidade
– Fatima Elizabeti Marcomin, Alberto Dias Silva

Seção do Professor
Inclusion: Still an Evolving Term from an International Perspective
– Lilia Dibello

Resenhas
Escola Analógica – Cabeças Digitais: O cotidiano escolar frente às Tecnologias Midiáticas de Informação e Comunicação
– Maria Lucia de Amorim Soares

Entrevistas
Entrevista com o professor Kurt Meredith

nova gripe e férias escolares no monitor

Está na rede a edição 151 do Monitor de Mídia. Veja o sumário:

DIAGNÓSTICO
Um pouco mais do mesmo
Programação infantil na televisão oferece poucas mudanças para as crianças em férias.

REPORTAGEM
Litoral de contrastes
Balneários da Costa Esmeralda, que lotam durante o verão, são ideais para descanso e recolhimento no inverno. Confira nessa reportagem uma galeria de fotos.

REPORTAGEM
Avanço da gripe A
A reportagem do MONITOR DE MÍDIA vai até a fronteira de Santa Catarina com a Argentina para acompanhar as medidas de contenção do vírus H1N1.

EDITORIAL
Reestréias
O MONITOR DE MÍDIA completa oito anos com mudanças em seus quadros e traça novas perspectivas.

MULTIMÍDIA
Previna-se contra a gripe
Confira os vídeos explicativos sobre as principais características da gripe A e suas projeções no Brasil

jornalismo, direitos autorais e a ofensiva da associated press

Dias atrás, comentei aqui post de Carlos Castilho sobre uma estratégia da Associated Press para controlar melhor seus conteúdos. De acordo com a AP, já seria possível responsabilizar buscadores como o Google sobre reproduções não autorizadas de seus materiais. Polêmica a ofensiva, pra se dizer o mínimo. À época de meu post, Marcelo Träsel respondeu com sua contundência habitual demonstrando ser um equívoco da empresa.

O tempo passou, mas não muito. Hoje mesmo, o mesmo Träsel vem à tona com um excelente post em seu blog. Reproduzo o finalzinho, mas se eu fosse você leria de cabo a rabo. Inteligente, equilibrado e muito lúcido!

Um dos desafios do jornalismo hoje é encontrar o equilíbrio entre o caráter de serviço público e, consequentemente, a necessidade de permitir o uso justo das informações, e a proteção ao trabalho dos profissionais de imprensa. Se algumas empresas de mídia estão tomando posições irracionais frente às mudanças trazidas pela comunicação em rede, se tentam controlar o incontrolável, é certo que também há abusos por parte de muitas iniciativas individuais e empresariais. O uso justo da informação reside em algum ponto entre esses dois casos.

prêmio adelmo genro: última semana

Restam apenas sete dias para o final do prazo de inscrição para a quarta edição do Prêmio Adelmo Genro Filho de Pesquisa em Jornalismo. A premiação é concedida pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) e é  voltada a trabalhos que tenham sido elaborados durante o ano de 2008.

São três categorias: Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado. Uma quarta categoria (Sênior) é atribuída a pesquisadores com reconhecida trajetória no campo do Jornalismo.

O regulamento e a ficha de inscrição estão disponíveis no site da SBPJor, e os trabalhos devem ser enviados para o email premiosbpjor@yahoo.com.br Entre as novidades deste ano está a composição das comissões avaliadoras por três membros, e a possibilidade de envio de trabalhos de iniciação científica em co-autoria.

Os resultados têm anúncio previsto para 6 de outubro. Os vencedores de cada categoria e seus respectivos orientadores recebem seus diplomas de mérito durante o 7º Encontro Nacional de Pesquisadores de Jornalismo, em novembro em São Paulo.

Mais informações: http://www.sbpjor.org.br/sbpjor/?page_id=421

Reforçando: inscrições no PAGF 2009 até 10 de agosto!!!

sala de prensa, 118: na rede!

Já está disponível a nova edição de Sala de Prensa. Parabéns, Gerardo Albarrán de Alba, pela longevidade desta importante referência!!!

O sumário 118 é o que segue:

  • Venezuela – Proyecto de Ley Especial contra Delitos Mediáticos
  • La prensa frente al crimen organizado: Periodistas, no voceros – Pascal Beltrán del Río
  • Análisis del seguimiento contra la libertad de expresión en México – Karina Coronado Cruz, Nubia C. Salas Lizana y Karla E. Aguilar Padilla
  • O Jornalismo entre a dúvida e a incerteza: reflexões sobre a natureza da atividade – Rogério Christofoletti
  • Los 21 puntos clave para una nueva ley de comunicación – Carlos A. Camacho
  • Aportes al pluralismo informativo – Daniel G. Gutman
  • El periodismo sin palabras – Isabel Cerón y Germán Perlaza Rúa
  • Periodismo literario: entre el mito y la verdad – Luis Raúl Vázquez Muñoz
  • Ten Years Later July 2009: Revisiting the Death of Photojournalism – Dirck Halstead