urano vai ao sesc

Não assistiu ao espetáculo Urano Quer Mudar? Pois é, não tem mais desculpas…

Se ainda não tinha visto porque as apresentações tinham ingressos limitados, alegre-se: agora, há mais lugares!

Se ainda não tinha conferido porque as sessões foram no Campeche e você mora longe, rejubile-se: agora, é no centro!

Se ainda não tinha assistido porque estava sem dinheiro, seus problemas acabaram: é de graça!

Então, vá ver!

Urano Quer Mudar terá apresentações hoje (sábado,13) e amanhã (domingo, 14) às 20 horas no Sesc-Prainha, bem no centro de Florianópolis. Os ingressos são gratuitos e devem ser retirados uma hora antes no local. No elenco, os ótimos Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro, do Círculo Artístico Teodora; na direção, Brigida Miranda, com assistência de Fábio Yokomizo; canções de Ana Laux; direção de arte de Paulo Henrique Wolf; iluminação de Ivo Godois; produção executiva de Claudia Venturi; e texto deste blogueiro…

O enredo? Um casal de atores prepara a mudança de casa, e redescobre o texto de um espetáculo que nunca chegaram a montar. Envolvidos nas lembranças de mais de cinquenta anos de palcos, eles passam a viver a história de um amor improvável que se passa em um cemitério. Memória ou invenção? Vida ou morte? Mudança ou destino? Quem se atreve a responder antes do caminhão de frete chegar?

Se você já viu a peça e gostou, vá ver novamente, e indique aos amigos.Se não gostou, já sabe: indique aos inimigos…

lá se foi o marinho…

Sou bem antigo para algumas coisas. Só corto cabelo em barbeiro, por exemplo. E escolho a dedo aquele que vai empunhar uma navalha pra aparar minhas costeletas. Machismo declarado, e no bom sentido. Aquele em que se espalha pelo chão do salão como as madeixas dos clientes… No barbeiro, viceja um ambiente cru e rude, mas fraterno e amigável. Os homens não vão ao barbeiro por vã vaidade, mas por higiene e… todos os assuntos que se pode ter num salão de barbeiro…

Em Florianópolis, corto os (poucos) cabelos no mesmo lugar desde o final dos anos 90… Mas em outras cidades onde vivi também frequentava barbeiros. Em Itajaí, por exemplo, eu ia no Marinho, que ficava bem próximo à praça da catedral. O ambiente era antigo, não tão limpo, mas autêntico. Marinho tinha cabelos brancos penteados pra trás, olhos claros e o rosto vincado. Não era alto, e falava muito baixo. Na verdade, quase nunca falava, embora eu tentasse puxar conversa. Ele resmungava alguma coisa e continuava o tique-tique-tique da tesoura. Era caprichosíssimo, mas caladão. Um dia, apareci por lá e ele estava de cabelos pintados de acaju. Manguei com ele. O que ele disse? Nada. Me olhou com aquela cara fechada. Desviei o olhar para a tesoura na mão dele e temi que ele se descuidasse. Mas o Marinho nunca se descuidava.

O salão tinha uma freguesia cativa, que ia de gente muito simples a figurões que estacionavam suas caminhonetes na frente da barbearia. Chovesse ou fizesse sol, o salão estava sintonizado numa rádio popular, em altos decibéis. Marinho, às vezes, aspergia um refrão sertanejo ou um scatch de funk. Isso mesmo! Marinho sabia das coisas.

Por um corte de cabelo masculino – ele só atendia clientes deste sexo! -, cobrava míseros cinco reais, quando a concorrência colocava seu preço quatro vezes mais. Marinho não ligava. Uma vez, levantei da cadeira tão satisfeito que dei uma nota de vinte e disse que estava certo. Ele me olhou com uma cara de jagunço-matador e me deu o troco sem dizer nada. Desviei o olhar para a tesoura que estava na outra mão dele, temendo por algum descuido. Mas o Marinho nunca se descuidava. Tanto é que morreu no início da semana, conforme me contou o amigo Carlos Praxedes. Morreu dormindo. Esticou a soneca. São Pedro e os anjos lá no céu estão com sorte…

perdi três amigos

A vida apronta cada uma pra gente, viu?

Hoje, de forma melancólica, acabei perdendo três queridos amigos. Eles eram muito, muito próximos a mim. Tínhamos uma relação desde a adolescência e posso dizer que crescemos juntos. Eram duros, mas discretos. E o que é pior: ultimamente formou-se uma verdadeira campanha de difamação contra eles. Diziam que não serviam pra mais nada e que o melhor mesmo seria… vocês sabem…

Foi assim – com hora marcada e de uma forma atroz – que o dentista veio e extraiu três dos meus sisos. Já sinto a falta deles, e é uma dor nada metafórica…

é da lata!

Se você tem mais de trinta vai se lembrar do “verão da lata”, né? Até saiu livro outro dia, contando o caso de milhares de latas de maconha prensada que “invadiram” o Rio de Janeiro, trazendo preocupação às autoridades e alegria para outras camadas sociais…

Pois não é que o imaginário popular ainda tem sérias desconfianças com latas? Ontem, retornando de viagem, fui abordado de forma muito simpática pela segurança do aeroporto de Congonhas. A moça – que mais parecia o Maguila por sua docilidade e porte atlético – rosnou logo que minha mochila passou pelo raio-X: “De quem é essa aqui?” Ergui o dedinho e murmurei: “É minha, moça!” Com as mãozinhas na cintura, ela rugiu: “É que tem uma lata aí dentro”. “É, tem”. “Que é que tem dentro da lata?!”, berrou, abalando uma pilastra do terminal. Um segundo é muito tempo e pensei em três respostas para a agente de segurança: 1) “Tem 800 gramas de cocaína, bruaca!”; 2) “É Nescau, dona, sou traficante de Nescau!”; 3) “Vaselina, doçura. A lata está cheia de vaselina e você sabe pra quê…”. Mas sou um cara educado e soltei um cândido: “Doce de leite, moça! Tô vindo de Minas”.

doce_pequeno_medalhaAntes de me encostar contra a parede e dar uma geral, a segurança disse de forma amável: “Vai ter que abrir!” Sorri amarelo, abri a mochila, e exibi com um misto de vergonha – tinha uma fila atrás de mim – e orgulho a lata. Era um exemplar do mundialmente famoso Doce de Leite de Viçosa, premiado no mercado, adorado por multidões, quase canonizado pela diocese local. Um segundo é muito tempo e me imaginei levantando a lata como Cafu fez em 2002, chuva de papel picado, flashs, We are the champion, urros de alegria… mas voltei à realidade.

Com os caninos à mostra, a segurança pareceu ter se convencido. Mas hesitou. Um segundo é tempo demais, e temi que ela fosse confiscar minha desejada lata e eu voltaria para casa apenas com o queijo meia-cura que comprara em Mariana. Mas voltei à realidade, guardei a lata e segui pelo saguão driblando a segurança, meia dúzia de turistas polacos, um cara de turbante e um anão de barbicha loira. Só saí do meu transe quando uma senhora disse de lado: “Preconceito ca lata, né mes?!”, disse em bom mineirês. Sorri amarelo, me dei conta do ocorrido e deixei escapar um pensamento político: Os mineiros deveriam se insurgir com coisas do tipo. Viu o que os cariocas fizeram com os royalties do petróleo?

e o amor, hein?

Outro dia, em Congonhas, na banca de revistas, passo por um rapaz com uma mochila nas costas. Percebo o zíper aberto, e reconheço o sujeito: “Criolo, sua bolsa está aberta!”. Ele se volta sorridente: “Obrigado, meu querido!”.

Eu o chamei de “Criolo”, e ele de “meu querido”. Contei o episódio à minha esposa, e ela se escandalizou com a minha forma de tratamento. Expliquei quem ele era, e tudo terminou bem. “Ele te conhecia?”, ela perguntou. Eu sorri balançando a cabeça. “Ele só foi gentil”. Alguém já falou que gentileza é um outro nome para o amor. Um tipo dele. Aliás, é o próprio Criolo quem já fez um belo apelo para mais amor… Vale!

a semana morta

Não, esse título é ambíguo. Parece que nada aconteceu nesses dias, que tudo estava parado. Mas parece também que a semana estava ligada à morte, ao fim. E é isso o que eu queria ter escrito, sei lá. Só sei que este post me escapa pelos poros, sem muito raciocinar, e a plenos pulmões. A plenos pulmões, com a espinha eriçada, já que um arrepio percore o corpo. Tudo porque assisto à semana passar e ela, coalhada de mortes. coalhada.

Na segunda, soube pelo Facebook que a mãe de 82 anos de uma amiga deixara de respirar. Minutos depois, numa lista eletrônica, sou informado de que é o pai de um amigo que também havia desembarcado do mundo. No final da noite, um telefonema revira a minha programação, e saio às pressas para o velório da mãe de outro querido amigo. Ela tinha 92 anos, e eu fiquei quase quatro horas ali, pensando na vida e na morte. Três amigos, três mortes de seus parentes.

Ontem, os telejornais nos chacoalharam com o fim da agonia de Hugo Chávez; e hoje, somos acordados pela mídia com a morte esquisita de Chorão. Que semana de acontecimentos tétricos! Que semana de saídas de cena!

É claro que a morte é inexorável, implacável e impiedosa. Basta estar vivo para morrer, diz a minha mãe. É uma certeza que a gente vai embora algum dia, mas sempre somos sacudidos por ela. Como se quiséssemos sepultar essa certeza; como se quiséssemos enterrar essa verdade. Que semana morta! E ela nem terminou… Quanto de ironia e ambiguidade há nisso tudo…

urano vai voltar

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Margarida e Faleiro, em registro de Paulo Wolf

Há dez anos, eu pesava menos, tinha mais cabelos e nem pai era. Entre a política sindical e o jornalismo, estava envolvido também com teatro. Atuava com um grupo, a Persona, e me arriscava a escrever. Numa dessas aventuras, fiz Urano Quer Mudar, peça para dois atores, que teve uma afetuosa leitura dramática no Festival de Teatro Universitário de Blumenau, em julho de 2003. Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro me deram esse presente, e um ano depois, Pepe Sedrez dirigiu uma única apresentação do texto com um jovem elenco.

O mundo girou uma porção de vezes, e dez anos depois, Urano volta pra valer, com direção de Brígida Miranda e meu querido casal de amigos no palco. Eles nunca tinham contracenado, daí que fui convencido a me desaposentar…

As canções são de Ana Laux, a produção executiva é de Claudia Venturi e a direção de arte de Paulo WolfFábio Yokomizo está na assistência de direção e a iluminação é de Ivo Godois. Pedro Loch assina a direção musical, e a cenografia está a cargo de Brígida Miranda.

A peça está em fase de montagem, com ensaios diários no Círculo Artístico Teodora, realizador do espetáculo. A estreia já tem data: 23 e 24 de março, durante a 3ª Maratona Cultural de Florianópolis.

O enredo? Margarida e Faleiro estão de mudança e, em meio aos preparativos, redescobrem um texto que não encenaram. Na leitura improvisada daquelas páginas, vasculham o passado, e se questionam sobre a vida, a morte, a memória e a arte…

nem tente me encontrar por aqui

pernasproarAs visitas a este blog despencaram nas últimas semanas fruto das teias de aranha que se acumularam no botão “Atualizar”. É culpa única e exclusiva do inquilino do lugar. O mais correto seria dizer “proprietário”. Mas, na verdade, sabemos todos que ele não é proprietário nem da própria vontade e muito menos do tempo que lhe resta. Daí que nesses dias senegalezes de Florianópolis e de folias familiares diversas este será o lugar que ele menos virá. O registro mais recente dele é este ao lado. Na verdade, nem foi o titular que escreveu este post. Sou um robô do Google, perfeitamente programado para simular o autor. Moderno!

é campeão; e eu já sabia!

O futebol não é só um jogo, uma metáfora de guerra num território cercado de quatro linhas, marcadas a cal. É um drama, é uma dimensão da vida. E como ela, é feita de gestos. Bons e ruins.

Ontem, dezenas de jogadores fizeram uma belíssima homenagem na despedida dos gramados do goleiro Marcos, eternamente Palmeiras. Claro, era um jogo festivo, uma celebração. Edmundo sofreu pênalti e o estádio todo insistiu que o guarda-metas batesse. O goleiro inverteu a natureza das coisas: tornou-se algoz, fez o gol, fez a festa. Homenagem. Gestos de reconhecimento e reverência.

Agora à noite, na final da Sulamericana, vi dois gestos. Um de covardia, de falta de brio, de descompasso. O Tigre não voltou para o segundo tempo, alegando ter sofrido agressões e ameaças, não documentadas, não mostradas e mal-porcamente explicadas.

Mas o que fez me emocionar e vibrar foi o gesto de generosidade de Rogério Ceni, outro goleiro. Capitão do São Paulo, cabia a ele erguer a taça no momento de consagração. Ele subiu no ponto mais alto, puxou Lucas consigo. Passou a ele a braçadeira de campeão e deu as honras ao menino de 20 anos que estava se despedindo do time, do Brasil, daquela torcida. Lucas, assustado, emocionado, extasiado, ergueu a taça e o resto é história e chuva de papel picado. Ceni, quase com 40 anos, deve jogar mais uma temporada e talvez tenha perdido sua última chance de levantar um troféu. Talvez. Mas não importa. Gestos contam mais. É com esse que eu fico. Foi com esse que eu olhei com cara de choro para meu filho hoje à noite…

2 mil posts depois…

Este blog existe desde maio de 2005 e há cinco anos está “pendurado” no wordpress, de onde já disparei 1999 posts. Este que o leitor tem diante dos olhos é o de número 2000, o que me impulsiona a pensar um pouquinho sobre o gesto de blogar. Desde que comecei, as coisas mudaram. No começo, escrevia quase que desesperadamente. Eram vários posts por dia, tentando dar conta das experiências online que ficavam cada vez mais ricas e múltiplas. O blog era efetivamente um diário de quem ricocheteava pela efervescente internet…

Não era à toa que eu havia escolhido batizar o lugar com um gerúndio. E não só: tinha optado por um verbo que está ligado ao olhar, ao capturar, ao vigiar… eu achava ser necessário monitorar o que estava acontecendo no universo das comunicações online, como se pudéssemos reter os movimentos.

Com o tempo, a frequência da escrita foi diminuindo, chegando à média de uma postagem diária, o que me levava a refinar o que poderia ser compartilhado. Assim, eu alternava posts mais pessoais com a replicação de conteúdos que julgava interessantes, como livros, filmes, músicas, eventos, vídeos. O diário compulsivo deu lugar a uma vitrine, uma prateleira de coisas úteis e interessantes.

A chegada de Twitter e Facebook, e o atoleiro de compromissos em que me meti desde 2011 têm feito com que o blog sofra algumas interrupções e fique meio à deriva. Já confessei que pensava até mesmo em desativar, por honestidade com alguns leitores ou mesmo pela simples tentação de não ter mais com o que se preocupar. Mas desisti. Gosto demais da possibilidade de ter uma frestinha na grande rede para soprar algumas das coisas que penso e julgo partilháveis. Talvez seja vaidade, talvez seja a teimosia da escrita. Talvez você, leitor, que me acompanha em algum momento, possa me explicar. Deixe o seu comentário então…

ponto positivo para a positivo

Se você acompanha este blog com alguma frequência, viu de perto uma pequena saga para que eu consertasse meu Alfa, o e-reader da Positivo. Pois não é que dois meses após meu aparelho parar de funcionar e eu pedir auxílio para os fabricantes, recebi um novo em minha casa?

O Serviço de Atendimento ao Consumidor da Positivo foi bastante prestativo, mas estava muito moroso na resolução do meu problema. Eu pedia que me indicassem serviços autorizados, mas o que se viu foi a total impossibilidade de me darem esse suporte. Troquei diversos emails com a Positivo e quando já não mais restava esperança, desabafei no Twitter.

Foi o lance certo para que a empresa entrasse novamente em contato comigo e tentasse rapidamente resolver meu problema. Mandei meu aparelho danificado para a fábrica e, constatada sua “morte” com apenas um ano de vida, me encaminharam outro novinho em folha e funcionando!

Um ponto positivo para os fabricantes, que demonstraram um respeito que deveria ser comum nas relações com os consumidores.

essa eu esperava desde pequenino…

Eu não tinha mais que onze anos quando descobri o traço de Milo Manara, que escancarou as portas de minhas percepções de pré-adolescente diante do universo dos quadrinhos. Sim, eu já folheava gibis desde os cinco, mas eram super-heróis, monstros, bichinhos… Manara me mostrou com quantas curvas se faz uma mulher, ao menos dentro dos requadros… Delicadeza, sensualidade, cores bem dosadas, volumes nos corpos. O desenho de Manara tem tudo isso, e um capítulo à parte é o tratamento que ele dá aos cabelos das suas musas. Tudo parece acontecer em câmera lenta, com música de fundo romântica e levemente picante…

(Eu iria cair de quatro mesmo com Paolo Eleuteri Serpieri e sua Druuna, mas isso é outra história)

O fato é que eu sempre desejei ver o encontro de Milo Manara e os quadrinhos de heróis, épicos e cheios de uma ação com alta voltagem. Isso já aconteceu, mas tem algo melhor vindo aí. Manara vai assinar a capa de um alardeado lançamento da Marvel no inverno norte-americano. Já pensou a Feiticeira Escarlate, toda esvoaçante sob a caneta de Milo Manara? Não pense, veja! Tá aí!

(dica do HQRock)

amy winehouse, e lá se foi um ano

Muita coisa aconteceu desde que encontraram o corpo de Amy em sua casa, já sem vida.
Apesar disso, não se encontrou ninguém como ela desde então…
Ela era a esquina entre o jazz e o rock. Atitude de jazz singer e vida de rock star…

notas de férias (1)

Tirei uns diazinhos de férias. Fui obrigado. Caso contrário, as perderia.
Diante disso, o que posso fazer? Go-zar.

1. O que mais me chamou a atenção em “O Espetacular Homem-Aranha” não foi o vilão reptiliano e escabroso, nem os sempre-incríveis efeitos especiais, nem a trama aracnídea. Foi Andrew Garfield. É, eu pensava que Tobey Maguire era o Peter Parker definitivo no cinema e que o magrelinho escalado para fazer o super-heroi iria cair das alturas. Besteira. Garfield mergulha no personagem sem rede de proteção, e faz um Parker no mais autêntico estilo adolescente: confuso, dramático, hiperbólico, atrapalhado. E seu Homem-Aranha é elástico, histriônico e acrobático, como o de Todd McFarlane.

2. A Praia da Armação ainda está ao deus-dará. A obra de contenção do mar foi mal feita, o comércio sentiu o baque da queda do turismo e a comunidade está abandonada. O mar continua a ser o mais lindo dessa parte da Ilha. As gaivotas reinam soberanas num céu sem limites. Como são sem limites as cagadas humanas.

3. Garcia-Roza voltou com tudo. Em “Fantasma”, ele traz mais uma vez o delegado Espinosa em um intrigante romance policial, sempre ambientado em Copacabana (ou arredores) e com personagens com contornos pouco nítidos e camadas e mais camadas de complexidade. Houve quem rosnasse com o lançamento. Gostei. Trama bem costurada, mistérios e segredos na medida. Aos 52 anos, Espinosa está melhor do que antes…

4. Tropecei em “Bourbon Street – Os fantasmas de Cornelius”, uma luxuosa HQ dos franceses Phillipe Charlot e Alexis Chabert, que mescla jazz, nostalgia, esperança e aparições de Louis Armistrong. Junte uma pitada de Buena Vista Social Club, uma arte vigorosa e bem detalhada, e um roteiro delicado, et voila! Vale a leitura, mas aviso: é apenas a primeira parte da história. A segunda só sai no Brasil no ano que vem…

5. E já que estamos falando (quase que só) de fantasmas, fuja de “Motoqueiro Fantasma – Espírito da Vingança”. É uma bomba

6. Dias ensolarados sepultam listas de compromissos chatos, atrasados e incontornáveis.

7. “Para Roma com Amor” é delicioso. Woody Allen está hilário: na frente e atrás das câmeras. Três ou quatro diálogos e ele chuta Roberto Benigni pro canto.

8. É bom acordar e se espreguiçar. É bom poder prestar atenção na própria respiração (mesmo que isso acarrete olhar pra pança indo e voltando). É bom fugir no meio da tarde para pegar um cinema. É bom estar vivo.

o fim de demóstenes

O Senado vota hoje pela manhã o pedido de cassação de Demóstenes Torres (sem partido – GO), e tudo parece fazer crer que ele será o segundo senador da história a ser defenestrado pelos seus pares…

A Polícia Federal gravou mais de 300 telefonemas entre Demóstenes e o contraventor Carlinhos Cachoeira. Putz! Mais de 300! É bem mais do que falo com a minha mãe! Isso quer dizer duas coisas: 1. Demóstenes gosta mais de Cachoeira do que eu da minha mãe! 2. Eu também merecia uma CPI por isso…

running

Clima de final de semestre. Clima de final de semana atribulada.
(Eliane Elias, a talentosa pianista de jazz brasileira que martela suas teclas nos Estados Unidos, dá uma amostra desse clima)

sete anos é um ciclo

Este blog completou sete anos de publicação no último dia 20. Eu ia escrever que são sete anos de publicação ininterrupta, mas se você passa por aqui com alguma frequência sabe que os posts têm ficado mais raros. A desculpa é a de sempre: absoluta falta de tempo. Desde que assumi uma montanha de compromissos profissionais – entre os quais a coordenação do Mestrado em Jornalismo na UFSC -, tem sido mais difícil levar esta second life de blogueiro. Já me queixei também se falta de motivação, mas o grande impedimento mesmo é a duração do dia. Ele curto demais.

De qualquer maneira, fica o registro. E pra não perder a mão, ofereço aos meus poucos (fiéis e insistentes) leitores um novo layout. Mais uma vez, fica o meu agradecimento pelo privilégio da sua visita.

homens que eu amo: clint eastwood

Não espere sorrisos em abundância, simpatia gratuita ou demonstrações explícitas de extroversão. Clint é caladão, taciturno, na dele. É assim nos filmes, onde encarna quase sempre a figura do solitário-vingador, e na vida real, conforme conta Marc Eliot na biografia “Clint Eastwood – Nada censurado”. Mas Clint não se limita a esse clichê, como se pode imaginar.

Os muitos percalços na carreira, a pouca certeza sobre seu talento como ator, os muitos casos extraconjugais, os filhos fora do casamento e o amadurecimento como homem e como artista são a base do livro. O retrato composto não é autorizado nem complacente. Também não é denunciador ou polemista. Clint é mostrado clinicamente, quase sem emoções ou arroubos de deslumbramento. Ele desfila calmo e determinado pelas páginas. Vemos Clint figurar em 56 filmes, dirigir 22 deles, receber oito indicações ao Oscar, levar outros cinco. Vemos Clint casar duas vezes, ter sete filhos, virar prefeito, virar diretor e produtor… Vemos Clint matar facínoras, vingar prostitutas, varrer cidades de mal feitores, trocar socos nas ruas, contracenar com orangotangos, apaixonar-se por mulheres…

Ao fim da leitura, não se pode dizer que haja uma redenção de Clint. Ele continua contestado pela crítica por suas limitações de atuação; permanece à espera de um Oscar de Melhor Ator, mesmo tendo batido na trave por mais de uma vez. Por outro lado, o leitor para e pensa: putz! A década mais interessante da vida desse homem é a que começa depois dos 70 anos. Depois disso, quando ele já poderia se aposentar e ficar mais tempo jogando golfe em seu clube em Carmel, Clint engata uma quinta marcha e produz como nunca, de forma inquieta, como se estivesse buscando algo. É dessa época Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, Gran Torino, A conquista da honra, Cartas de Iwo Jima, Invictus, Além da Vida, A troca…

Você pode nem ir muito com a cara dele, mas Clint é extraordinário. Não acha?

esperei trinta anos pra ver esse filme

Levei meu filho de sete anos para assistir a Os Vingadores. Na verdade, teria ido sem ele mesmo, já que há trinta anos espero para ver a reunião de alguns dos maiores super-herois dos quadrinhos. Isso mesmo! Desde a década de 80 eu me perguntava quando seria possível ver no cinema a magia que eu conferia naquelas páginas…

Àquele tempo era mesmo impossível ter um resultado como o de hoje, quando os efeitos especiais são tão sofisticados! A computação gráfica engatinhava e a qualidade do som era questionável; os roteiros eram imbecilizantes e o enredeo dava lugar mais o humor e ao escracho do que à ação…

Àquele tempo, Nick Fury era branco, tinha cabelos grisalhos e não parava de mascar um charuto velho; as histórias publicadas nos Estados Unidos desembarcavam no Brasil quatro ou cinco anos depois, criando um abismo na cronologia e uma esquizofrenia no universo de Marvel e DC. Naquela época, Thor era louro e usava elmo, e as revistas tinham títulos duvidosos como “Grandes Aventuras Marvel” e “Herois da TV”… Mesmo assim, o planeta corria o risco de se tornar uma colônia de alienígenas quando não fosse devorado por alguma entidade cósmica.

Uma vida inteira depois, o filme deslumbra e esnoba. São vertiginosas as cenas do combate entre Hulk, Thor, Homem de Ferro, Capitão América, Gavião Arqueiro e Viúva Negra contra Loki e um exército alien. Os diálogos são bem escritos, encaixando bons respiros de humor e sarcasmo. Algumas atuações – como as de Robert Downey Jr e Mark Ruffalo – moldam boas personalidades, e a trilha sonora atinge contornos épicos. O filme é mais longo do que deveria, tem algumas barrigas, mas nada que comprometa. O balanço é, de longe, positivo e não decepciona nem fãs antigos nem os de última hora.

A estratégia da Marvel foi bem executada desde o início: produziu filmes de cada um dos principais personagens, como a preparar o terreno para o grande ataque, a ofensiva coletiva. Se os dois títulos de Hulk foram oscilantes, os dois do Homem de Ferro mantiveram um nível alto e envolvente. Os de Thor e Capitão América não chegaram a abalar as estruturas, mas exibiram alguma dignidade. Meu receio era que Os Vingadores naufragasse como a franquia de X-Men… Felizmente, não! Menos mal para os realizadores. Afinal, Hulk não perdoaria…

um vinicius repetitivo e apressado

Eu já havia cruzado mais de uma vez com “Nuestro Vinicius” numa bela livraria de shopping. Neguei-me a levar por um misto de desconfiança e receio. A desconfiança: será que uma biografia escrita por uma estrangeira ultrapassaria a admiração que já tinha pelo que considero o livro definitivo sobre Vinicius de Moraes? A gringa é a jornalista Liana Wenner, e a obra-prima da qual não queria abrir mão é “Vinicius de Moraes – o poeta da paixão”, do crítico José Castello. O receio: deparar-me com um relato que corrompesse o personagem que cultivo como a um parente próximo.

Por uma dessas coisas que não se explica, ontem, trombei mais uma vez com o livro da argentina, mas agora numa versão brasileira, recém-lançada. Por aqui, a biografia que trata das aventuras do Poetinha na Argentina e Uruguai passou a se chamar “Vinicius portenho”. Trouxe comigo, e passei a devorá-la logo após o almoço, como quem se empanturra com papos de anjo em trevas totais…

Mas o que percebi nas primeiras 50 páginas é que o livro nem faz sombra a outros títulos que biografam esse inesquecível personagem. Primeiro porque é mal escrito: tem ideias repetitivas, não é claro no percurso temporal – o que causa desorientação no leitor -, e ainda por cima cria um ou outro clímax que não se sustenta. Depois, porque a pesquisa da autora parece apressada, circunscrita a poucas fontes, e com um tratamento das informações que tende ao preguiçoso. Não raras são as vezes em que Liana Wenner deixa o fio condutor de lado e entrega ao leitor longos trechos de depoimentos, sem um tratamento que uniformize o seu texto, como quem não sabe muito bem o que fazer com aquilo tudo. A narrativa perde em fluxo e potência; a autora evapora diante dos depoentes…

Isto é, “Vinicius portenho” me decepcionou bastante. A prosa é fácil, rotineira até, o que faz restar a impressão de que estamos diante não de um livro, mas de um amontoado de textos jornalísticos – feitos no calor e na pressa do cotidiano -, sem um período de amadurecimento, polimento e cuidado. Apesa disso, é preciso dizer que a obra não é pretensiosa, como se costuma encontrar por aí em outros empreendimentos biográficos. Mas o Poetinha merecia mais que isso.

Em “Garoto de Ipanema”, de Alex Solnik, encontramos um saboroso cardápio de episódios que apresentam Vinicius de Moraes numa dimensão bem humorada e bonachona. Também não há pretensão ou sisudez, mas a leveza do texto do autor carrega o leitor numa viagem bastante prazerosa. “Vinicius de Moraes – uma geografia poética”, de José Castello, é um trabalho restrito a mostrar os lugares por onde passou o poeta, relacionando afetos e logradouros. Caminha-se com o velho sedutor, com o compositor inspirado, com o poeta de copo na mão. Mas “Vinicius de Moraes – o poeta da paixão”, do próprio Castello, é um retrato muito bem acabado, sincero, dramático e doce, como era o “branco mais preto do Brasil”.

Enfim, Benjamin Moser nos mostrou uma Clarice Lispector multidimensional e sólida, mostrando que sua estrangeiridade em nada afetou a distância de sua biografada; Liana Wenner nem arranhou a moldura de Vinicius…

uma lágrima para moebius

Sei que já não é novidade, afinal aconteceu há quase uma semana… mas a vida anda corrida, e pelo jeito, a morte também tem a sua pressa. Moebius deixou de desenhar no sábado passado. Morreu e viajou para habitar seus mundos desenhados. Tinha um estilo claro, limpo, elegante. Trabalhou com gente importante e influente, deixou um legado, uma obra, enfim. Conheci seu trabalho nos anos 1980, quando desembarcou no Brasil uma graphic novel que ele assinava com o mítico Stan Lee. Na época, juntei cada centavo (era a época do Cruzado Novo!) para comprar a revista e nunca me arrependi. Mais de uma década depois, perdi o título numa mudança. No ano passado, num sebo, readquiri o exemplar. Na história de Stan Lee, o Surfista Prateado mais uma vez se digladia com o devorador de mundos Galaktus. E mais: revela a fragilidade da vida dos humanos e suas muitas contradições. Nos desenhos de Moebius, o Surfista se mostra esguio, brilhante, inigualável.

um dos duetos mais emocionantes

Na madrugada deste domingo, fui sacudido por uma torrente emocionante quando vi um número que reuniu Maria Gadú e Beto Guedes, no programa Altas Horas. Gadú, com seu timbre vigoroso e encorpado, é acompanhada por um Beto Guedes, envelhecido mas ainda muito suave e generoso. O compositor mineiro de voz afeminada é um dos poetas mais importantes dos anos 70 e 80 no Brasil. “Amor de índio” – assinada com Ronaldo Bastos – é uma das suas melhores canções e deveria ser ensinada nas escolas, como o Hino Nacional.

para onde vão os livros?

Um velho ditado proclamava: “As palavras caminham”. Se elas não ficam paradas, o que dirá dos livros?

Os que você tem em casa, estão à sua vista, mas e os que você empresta ou os que são descartados?

Frequento sebos não apenas para encontrar livros baratos e fora de catálogo. Volta e meia, descarrego em um sebo os livros que não leio mais, não vou ler nunca ou que já transbordam da minha estante. Eu sei, tem gente mais apegada que não se livra de seus livros nunca. Também já fui assim, mas é que vem faltando espaço e, volta e meia, tento desocupar lugares nas prateleiras para os novos volumes que comprei e ganhei. Pois recentemente tive duas gostosas surpresas com os livros que dispensei. E quem me trouxe notícias deles foi o Facebook.

Meses atrás, uma moça mandou mensagem reservada pelo sistema dizendo que havia comprado um livro que fora meu. Ela identificara meu nome na folha de rosto, e em dois cliques no Google me encontrou. O livro era “A linguagem no pensamento e na ação”, e ele estava no interior de São Paulo, a quase mil quilômetros de onde estou. Vendi o livro em Florianópolis e, meses depois, a nova dona dele me encontrou na internet e decidiu mandar lembranças do volume. Achei curioso.

Semana passada, tive novas informações de outro ex-livro-meu: “Liberalismo e Democracia”. Mais uma vez, um desconhecido me procurou na rede, e me contou que era o mais novo proprietário. Desta vez, o volume viajara pouco. Na verdade, ele até estava me seguindo. Foi comprado numa banquinha de livros a cem metros do prédio onde leciono na UFSC. Tenho certeza de que vendera para um sebo do centro da cidade, mas “as palavras caminham”, lembra? O novo leitor não só me contou do livro como disse que me conhecia de uma palestra em outro lugar, e que ele sim viajara e acabara de comprar o volume…

Você pode até dizer: tá e daí?

E daí que o mundo é bem pequeno, os livros não ficam parados e as redes sociais ajudam as pessoas a se encontrar. Há poucos anos não escrevo mais meu nome na folha de rosto dos livros. Não é preguiça, superstição ou coisa que o valha. É só um ensaio de desapego.

vá chorar com hugo cabret

Amo cinema, mas torço o nariz para filmes exibidos em 3D. Por uma razão simples: na maioria das vezes, o efeito tridimensional é só um penduricalho, algo para fazer um buzz e cobrarem 50% a mais no preço dos ingressos. Eu disse na maioria das vezes. Hoje, fui ver “A invenção de Hugo Cabret”, produção assinada por Martin Scorsese e que disputa o Oscar de melhor filme neste ano. E não houve jeito: assisti à versão em 3D e (muito bem) dublada. E quer saber? Não me arrependi em nenhum momento desde que entrei na sala. Imagine: tarde um domingo de Carnaval, havia vinte e poucas pessoas na sessão apenas, silêncio, calma, atenção total para a projeção…

E o 3D? Sen-sa-cio-nal! Tanto pelo uso inteligente quanto pelo emocional. Eu explico.

Scorsese filmou nos dois sistemas – o convencional e o D-Cinema -, mas as perspectivas de filmagem, os enquadramentos, a exploração da profundidade de campo, buscando novos pontos focais fazem com que a experiência de assistir a “Hugo” seja realmente envolvente e não superficial. Se em “Avatar” o efeito era estonteante, agora é transportador, vertiginoso na primeira sequência do filme. Não bastasse explorar como ninguém o 3-D, ao escolher este triunfo tecnológico, Scorsese faz mais uma homenagem a Georges Mèliés, a quem o público é apresentado com tanta delicadeza e respeito. Afinal, o cinema também é isso: uma arte apoiada na sensibilidade e no engenho, na emoção e na técnica.

“A invenção de Hugo Cabret” é desses filmes que já nascem clássicos, pois fazem justas homenagens a personagens-chave do cinema e resgatam elementos de primera, como a ilusão, a fantasia, a magia… Com Scorsese, assistimos estupefatos à “Chegada do trem à estação”, mas agora em 3D! Tão estupefatos quanto o público daquela mítica primeira exibição do cinematógrafo… Grande sacada que reúne passado (1895) e presente (2011-12), e dois realizadores importantes para a arte e a indústria: Mèliés e Scorsese.

Ben Kingsley está soberbo como sempre; a trilha é sensível – embora não seja tocante como em outros filmes do tipo; o próprio Scorsese faz uma aparição-relâmpago (fique ligado!); os efeitos especiais são usados na medida; mas são os cenários e a maquinaria envolvida que transborda pela tela.

Se você conhece a história do cinema, vá ver “Hugo” pelo que ele nos relembra desse rico enredo.
Se você não conhece a história do cinema mas quer ver uma história bem contada no cinema, vá ver “Hugo” para assistir à poesia escrita com a luz.
Nos dois casos, como já avisei no título do post, leve uma caixa de lenços descartáveis.

ê vidinha essa hein?

Ontem à tarde, na trilha do engenho, no norte da Ilha de Santa Catarina…

(relatos desta e de outras trilhas estão aqui)

nosso herói ataca novamente…

Se você teve insônia ontem, viu que a Globo reprisou pela enésima vez “Curtindo a vida adoidado”. Ainda bem. O filme é um clássico para quem passou a adolescência nos anos 80. Se você não sabe do que estou falando, dê um Google ou vá buscar informação na Wikipedia ou no YouTube… Por outro lado, se você também é um fã de Ferris Bueller, saiba que ele está de volta! Mais uma vez curtindo um dia de folga como ninguém, e numa super máquina.

A Honda convidou nosso heroi para um comercial que será exibido no intervalo do SuperBowl.

Só…